20.5.09

PoPoetry



(pintura de henri fantin-latour, "la rêverie", s/d)


5.

cubo


(para o eugénio outeiro e o vincenzo natali)


pergunto-te a ti, sara, se da voz
te fazes labirinto e procura incessante
dos dedos. pergunto-te se sentes
dúvidas, se amas a água, o cubo
fechado, o não sei quê de irracional
que se encontra no interior do
ventre materno.

pergunto-te se calas os homens
quando te aproximas com um
alguidar branco, às vezes é difícil
amar quando as perguntas que
fazemos não formam eco: a empatia
do corpo e dos olhos.

pergunto-te, sara, se a fortaleza
existe, se somos estrelas ou bem-
aventurados no interior de um
labirinto sem chão: o ventre materno
permeia a água e dá um pouco
de si à chuva que cai abundantemente
da minha / tua janela.

pergunto-te se os rios que correm
fazem perguntas: um poema não
precisa de respostas nem de velhos
pontos de interrogação que evitam
a sua fragilidade intocada.

todo o labirinto / cubo / espaço mágico
é um misto de peles e de pontos
sagrados: não se permite conhecer,
apenas sobrevoar pelo dom da vida.

jorge vicente

14 comentários:

pin gente disse...

o ventro materno é nosso primeiro colo.

gostei muito.
um abraço
luísa

alice disse...

muito bonito, jorge. a sara, seja ela quem for, é antes de mais uma palavra, que aqui, neste poema, é a mais bela, e a quem todas estas perguntas são dirigidas... sei que ela te responderá. gostei muito! um grande beijinho.

Clarinhaaa disse...

Uauuuuuuuuuuu...
amei. Literalmente!
Caramba, que belas palavras, colocadas uma depois da outra em total sintonia.
ADOREI..
agora sou seguidora assídua!
pode?
rs

beijos transatlânticos!
=)

MEL disse...

Há um realismo poético que me deixa impressionada e de pêlos arrepiados;)

José António disse...

.

Caro Jorge,

Não sou crítico de Poesia nem a tal me atrevo, mas gostei muito de ler estes poemas.
Parecem-me denotar uma profunda sensibilidade pelo mundo, e isso é muito bom. Dá-lhes imensa consistência e solidez.

Vai dando notícias e continua em frente!

Abraço

.

Cássio Amaral disse...

muito bom meu velho.

fiz um poema pra ti e vou jogar no meu blog depois.

abração.

ca.

Rubens da Cunha disse...

Obrigado pela visita ao Casa de Paragens. Belíssimo poema esse seu... gosto muito da dicção da poesia portuguesa contemporânea.

Ruela disse...

Excelente!



Abraço.

Outeiro disse...

Ainda hoje cheguei ao meu blogue -que se actualiza como eu, aos impulsos e quando calha- e li o teu comentário, amigo Jorge.

Não posso menos que vir aqui agradecer. Na verdade, o teu poema conseguiu emocionar-me. Há nele imagens curiosamente condizentes com outros poemas da mesma série (Sara) que naquela época escrevi e nunca chegaram a ser publicados.

Estou a tentar tirar do teu comentário o ter endereço de correio para compartilhar contigo pelo menos um desse poemas.

Mais uma vez, obrigado.

jorge vicente disse...

os rios que correm dão sempre para o ventre materno, luísa, a nossa mátria.

um grande abraço
jorge

jorge vicente disse...

um grande sorriso, alice.

um abraço enorme
jorge

jorge vicente disse...

obrigado, vera :)

um grande beijinho
jorge

jorge vicente disse...

obrigado, zé.

um grande abraço
jorge vicente

jorge vicente disse...

tu mereces, amigo.

um grande abraço
jorge vicente