24.3.16

Casa de la Ronda


4.

da minha loucura apenas uma pequena limitação de espaço: saber que não existem cozinhas suficientes para escrever, saber que o almoço não está pronto e que faltam ainda muitos anos para que a língua se transforme num osso suave. é preciso transcender até à pele mais clara, dominar com exactidão absoluta o que acontece quando as portas se fecham ao mesmo tempo e quando a jangada é um rito amoroso de compaixão.

Jorge Vicente

18.2.16

Casa de la Ronda

3.

ajuda-me a falar a língua dos anjos, a língua lustrosa e iluminada, a língua de toda a literatura e de toda a rasa teologia. ajuda-me nessa língua que não pede nem desaloja nenhuma poética nem nenhuma sistematização de linguagens. nessa língua sem métrica nem metáforas, nessa língua das ruas e dos pequenos botequins de esquina, nessa língua que ensina a gelar um osso e a transformar uma paisagem numa casa e num quarto. e a inscrever incessantemente um homem no círculo gerado pelas marés.

Jorge Vicente

15.2.16

[perguntem às altas ondas]

perguntem às altas ondas a alvura de uma alva noite
a leveza branca num branco aconchego
o alto minho na alta montanha mais alta

o bom jesus a boa noite
a boa estrela na branca saudade
são leves são leves as frágeis estrelas


os frágeis ossos
no osso do poema mais frágil.

Jorge Vicente

7.1.16

Casa de la Ronda



2.
todo o meu poema se inscreve nesta casa. com os seus objectos pessoais, com toda a sua humanidade, com gente-adentro abrindo ímpetos de potência sobre o corpo.

somos uma grande família, um refúgio líquido entre as mães. um lugar sem centro e onde poderemos [com verdade] escrever: en las ribas el rio maior se abre entre nosotros. e entre nosotros la ronda se vibra como un arbol de estrellas.

Jorge Vicente

Casa de la ronda



1.
já tantos de nós escreveram isto. ou escreveram melhor. ou com mais intensidade. ou com a força de um país aberto às suas próprias veias.
já tantos de nós decidiram: a nomeação de uma casa obedece a ordens gramaticais e a uma inversão do sentido. o que poderá ser colocado no lugar das palavras? o meu próprio corpo? uma triste [e alegre] dimensão nova?
já tantos de nós abriram o seu próprio livro. e decidiram que não pode ser assim. uma casa tem de ser de todos. mesmo daqueles que ardem na alegria dos infernos.

Jorge Vicente

9.11.14

Cadernos de Gethsemani

4.

 começa por escrever um poema verdadeiro
daqueles leves bem leves
daquela leveza bem justa e boa
daquela leveza bem dentro bem fora da língua

começa por escrever um poema sem vícios de forma
sem domínio claro e preciso da linguagem
não precisas voltar nem deslizar sorrateiramente
pela história da literatura
ela não te pertence
nem tu a ela

começa por dizer vou jantar com o coração apertado
não tenho espaço para mergulhar
sem pé, nem tenho medo de escrever
vou mergulhar de bruços em todo o teu poder

[violo e esta é a minha verdade,
a língua vivida sem escafandro].


Jorge Vicente

26.10.14

Cadernos de Gethsemani

3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].


Jorge Vicente