9.11.14

Cadernos de Gethsemani

4.

 começa por escrever um poema verdadeiro
daqueles leves bem leves
daquela leveza bem justa e boa
daquela leveza bem dentro bem fora da língua

começa por escrever um poema sem vícios de forma
sem domínio claro e preciso da linguagem
não precisas voltar nem deslizar sorrateiramente
pela história da literatura
ela não te pertence
nem tu a ela

começa por dizer vou jantar com o coração apertado
não tenho espaço para mergulhar
sem pé, nem tenho medo de escrever
vou mergulhar de bruços em todo o teu poder

[violo e esta é a minha verdade,
a língua vivida sem escafandro].


Jorge Vicente

26.10.14

Cadernos de Gethsemani

3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].


Jorge Vicente

21.10.14

Poema




(fotografia de nila oakes)





carrego uma nuvem às costas

como se dependesse de mim

permanecer no silêncio



naquele silêncio

que não se quer rígido

esquecendo-se do propósito de

existir e de alimentar o fogo



sossega-me ver uma casa ao

longe, adormecida no ceptro

de terra abandonada



uma casa caiada de branco, todas

as casas o são, mesmo que os olhos

roubem a realidade

e deus a ignore.



a memória verga todas as coisas,

mesmo o silencioso movimento

da não-existência.



tudo é ilusório.



a casa abraça

a ferrugem dos corpos caiados

de gestos.   os dedos movimentam-se

numa sinfonia de trevas.


Jorge Vicente






3.9.14

Cadernos de Gethsemani

2.

o meu pequeno deus doméstico
ininterruptamente escrevendo na argila:

constrói uma pequena linguagem que
possa alimentar os pássaros.

jorge vicente

28.8.14

Cadernos de Gethsemani

1.


desceram das montanhas os primeiros animais, as primeiras aves, as mães que, nas casas
dos filhos, casam e cozem o pão;

desceram das montanhas a flauta e a voz humana,
essa imensa cosmologia
mais breve que o voo de uma libélula
e infinitamente mais silenciosa [ou triste]
que a humana escritura dos deuses.


Jorge Vicente

26.2.14

Transição

3.

é um Canto
ou uma posterior humanidade esta que escreve
"estou aqui",

que habita entre silêncios brancos
entre uma pegada de animal
e um corpo [para sempre animado],

um corpo desejoso de escrita
ou da destreza de um verso:
o-leve-bater de um ofício-ainda-novo:

a ânsia monástica da vivência.

Jorge Vicente

25.2.14

Transição


2.

não tenho biografia. nem um pouco desse ajuntamento fácil de acontecimentos e experiências,
dessa história, dessa memória narrada que me faz a mim [e aos outros poetas]

não tenho nada disso que se chama idade cronológica
idade fértil experiência de vida hora de entrar e sair do poema

não tenho nem nunca tive história
           [e nem posso ter]

porque a posteridade é uma faca que agarra a pele
e a vivência não pode ser deste tempo
nem do outro que passou,

senão duma presença
encorporada em tempo cenestésico
que acende.


Jorge Vicente