7.1.16

Casa de la Ronda



2.
todo o meu poema se inscreve nesta casa. com os seus objectos pessoais, com toda a sua humanidade, com gente-adentro abrindo ímpetos de potência sobre o corpo.

somos uma grande família, um refúgio líquido entre as mães. um lugar sem centro e onde poderemos [com verdade] escrever: en las ribas el rio maior se abre entre nosotros. e entre nosotros la ronda se vibra como un arbol de estrellas.

Jorge Vicente

Casa de la ronda



1.
já tantos de nós escreveram isto. ou escreveram melhor. ou com mais intensidade. ou com a força de um país aberto às suas próprias veias.
já tantos de nós decidiram: a nomeação de uma casa obedece a ordens gramaticais e a uma inversão do sentido. o que poderá ser colocado no lugar das palavras? o meu próprio corpo? uma triste [e alegre] dimensão nova?
já tantos de nós abriram o seu próprio livro. e decidiram que não pode ser assim. uma casa tem de ser de todos. mesmo daqueles que ardem na alegria dos infernos.

Jorge Vicente

9.11.14

Cadernos de Gethsemani

4.

 começa por escrever um poema verdadeiro
daqueles leves bem leves
daquela leveza bem justa e boa
daquela leveza bem dentro bem fora da língua

começa por escrever um poema sem vícios de forma
sem domínio claro e preciso da linguagem
não precisas voltar nem deslizar sorrateiramente
pela história da literatura
ela não te pertence
nem tu a ela

começa por dizer vou jantar com o coração apertado
não tenho espaço para mergulhar
sem pé, nem tenho medo de escrever
vou mergulhar de bruços em todo o teu poder

[violo e esta é a minha verdade,
a língua vivida sem escafandro].


Jorge Vicente

26.10.14

Cadernos de Gethsemani

3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].


Jorge Vicente

21.10.14

Poema




(fotografia de nila oakes)





carrego uma nuvem às costas

como se dependesse de mim

permanecer no silêncio



naquele silêncio

que não se quer rígido

esquecendo-se do propósito de

existir e de alimentar o fogo



sossega-me ver uma casa ao

longe, adormecida no ceptro

de terra abandonada



uma casa caiada de branco, todas

as casas o são, mesmo que os olhos

roubem a realidade

e deus a ignore.



a memória verga todas as coisas,

mesmo o silencioso movimento

da não-existência.



tudo é ilusório.



a casa abraça

a ferrugem dos corpos caiados

de gestos.   os dedos movimentam-se

numa sinfonia de trevas.


Jorge Vicente






3.9.14

Cadernos de Gethsemani

2.

o meu pequeno deus doméstico
ininterruptamente escrevendo na argila:

constrói uma pequena linguagem que
possa alimentar os pássaros.

jorge vicente

28.8.14

Cadernos de Gethsemani

1.


desceram das montanhas os primeiros animais, as primeiras aves, as mães que, nas casas
dos filhos, casam e cozem o pão;

desceram das montanhas a flauta e a voz humana,
essa imensa cosmologia
mais breve que o voo de uma libélula
e infinitamente mais silenciosa [ou triste]
que a humana escritura dos deuses.


Jorge Vicente