30.10.08

uma experiência de vida: bernie s. siegel



(quadro de pierre bonnard, "nu accroupi au tub", 1914)


(peço desculpa por tantos excertos de bernie siegel, mas adoro este homem. e os textos são motivadores)

"Uma das maiores dificuldades é ter tão pouco tempo para passar com a família. O atleta pode tomar duche e ir para casa a seguir ao jogo mas, para os médicos, o dia de trabalho frequentemente não tem fim. Tive de me habituar à ideia de que estar e casa ao fim-de-semana era um bónus e não algo com que pudesse contar. Para além disso, sofria de culpa em dois sentidos: tirando umas horas de folga sentia-me como se roubasse tempo aos meus doentes, mas os dias de dezasseis horas afiguravam-se como um roubo de tempo à minha mulher e aos meus filhos. Não sabia como reagir à culpa nem como uniformizar a minha vida. Muitas noites sentia-me demasiado cansado para tirar partido da família depois de chegar a casa. Uma vez, estava tão exausto que, ao levar a babysittter a casa, tomei automaticamente o caminho do hospital. Provavelmente terá pensado que a estava a raptar.

Mesmo o tempo que conseguia passar em casa era sempre interrompido. Os miúdos estavam sempre a perguntar: «Estás de serviço esta noite?» Toda a gente se enervava quando eu estava de serviço, na certeza de que o serão em família não duraria muito. Para a maioria das pessoas o toque do telefone é um som amigável. Para nós significava ansiedade e separação.

Uma das provações mais duras de um clínico deve-se ao facto de a morte surgir mais vezes durante a noite do que a qualquer outra hora, algo que agora compreendo. Não se pode deixar de sentir um lampejo de fúria quando um paciente que esteve dias em coma morre às duas da manhã e o médico e a família têm de acordar com a notícia. Pensamos: «Porque é que os mortos não hão-de ter algum respeito pelos vivos?» Poucos de nós mencionamos esta hostilidade. Limitamo-nos a sentir-nos culpados por isso. Depois há o fardo adicional de ter de estar bem-disposto e despero no bloco cirúrgico às sete da manhã, apesar dos problemas familiares e de duas ou três chamadas a meio da noite." (1)

bernie s. siegel



(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 33, 34.


de referir que bernie siegel, depois de tanta frustração e tantas dúvidas em relação à sua profissão, verificou que o problema da maior parte dos clínicos se resumia ao seguinte: lidavam com casos, gráficos, doenças, remédios, etc. e não com pessoas. vários anos depois de ter proposto um novo modelo de assistência, o seu exemplo e a sua experiência são uma inspiração para muitos.

aqui um vídeo com bernie siegel:

1 comentário:

M. disse...

eu por acaso tenho adorado ler os excertos que aqui partilhas. E ainda pedes desculpa? eu agradeço.

Beijinhos