31.10.08

uma experiência de vida: bernie s. siegel, parte 2

(qualquer dia, dizem-me que estou a meter o livro todo aqui, mas não importa. estes escritos têm de ser partilhados).

(dedico este post à Patrícia e a todos os médicos)



(quadro de félix edouard vallotton, "the piano player", 1896)


"Continuava a debater-me entre continuar como cirurgião e desperdiçar a aprendizagem de meia vida para ingressar noutra especialidade. Pensei na psiquiatria, onde podia ajudar as pessoas sem as cortar. Então um dos meus pacientes de cancro, um pianista chamado Mark, ajudou-me a perceber que podia ser feliz sem mudar de profissão. Ao registar melhoras, todos os amigos lhe disseram que devia regressar ao palco, mas ele dizia que sabia que já lá não tinha lugar. Descobrira que se sentia mais feliz a tocar piano apenas em casa. Continuava a fazer o que gostava, mas tinha mudado o contexto para o adaptar às suas necessidades. Percebi que tinha de fazer o mesmo.

Tentei «sair de detrás da secretária» e abrir tanto as portas do meu coração como a do consultório. Agora tenho, literalmente, a secretária encostada à parede para que o doente e eu estejamos na posição de nos encararmos de frente como iguais. Um trabalhador dos telefones, um carpinteiro e um estudante de medicina disseram que o meu consultório está todo mal porque a secretária deixou de estar a meio. Tive de explicar que quero ver o meu paciente sem nenhum obstáculo entre nós, em vez de nos relacionarmos como especialista e fracasso.

Comecei a encorajar os doentes a tratarem-me pelo nome próprio. De início era um bocado assustador ser apenas Bernie e não o Dr. Siegel - conhecer os outros como pessoa e não como um rótulo. Significava que tinha de gostar de mim próprio e merecer respeito pelo que fazia e não pelo que tinha aprendido na faculdade. Mas a mudança valeu bem a pena. É uma forma simples mas eficaz de derrubar a barreira entre médico e paciente.

Mudar a secretária e passar ao tratamento pelo nome próprio eram apenas sintomas de uma mudança maior. Cometi o pecado cardeal do clínico: «envolvi-me» com os meus doentes. Pela primeira vez, comecei entender integralmente o que significa viver com um cancro, conhecendo o medo de que esteja a alastrar enquanto se fala com o médico, se lava a loiça, brinca com os miúdo, dorme ou faz amor. Como é difícil manter-se a integridade como ser humano sabendo isso!

(...)



(quadro de mary cassatt, "bill lying on his mother's lap", circa 1889)


Primeiro comecei a abraçar os doentes, imaginando que precisassem que os tranquilizasse. Mais tarde, dei por mim a dizer «preciso de o abraçar», para poder continuar. E mesmo que estivessem ligados a ventiladores, os doentes esticavam-se para me ajudar com um toque ou um beijo, e a minha culpa, a fadiga e o desespero evaporavam-se. Estavam a salvar-me.

Em face de tanta coragem, desejei vezes sem conta poder fazer qualquer coisa para facilitar a passagem. Comecei a sentir que os métodos para tentar prolongar a vida e curar doenças utilizados na minha profissão, entre os objectivos mais nobres da nossa civilização, eram por vezes mais cruéis que o estado selvagem, onde a doença grave é prontamente aliviada pela morte. Diz-se que ninguém pode conceber verdadeiramente a própria morte, mas tenho a certeza de que alguns o fazem quando têm de pesar o fardo das horas, dias ou meses que faltam. Os idosos perguntam-se muitas vezes porque viveram tanto tempo só para sofrer tanta infelicidade e humilhação adiadas. Acho que devíamos poder fazer mais para ajudar uma pessoa a abandonar-se e acabar facilmente com a vida quando desaparece o valor de cada dia. (Falo de meios naturais de abandono, ao dispor de todos nós quando a morte não é considerada um fracasso.)" (1)

(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pgs. 35-38.

1 comentário:

M. disse...

Não imagino médicos a abraçar doentes. Pelo menos a maioria. Deve haver excepções raríssimas e estas devem realmente ser um conforto imenso para quem sofre.

beijinhos