15.5.07

Fellatio Americana




(imagem de Brown Bunny, 2003)

(a Vincent Gallo e Chloe Sevigny)

esqueço-me de ligar as portas do carro. elas estão presas ao pó que circunda o pátio da casa. vou sair. ligo o ar condicionado e espero que a rádio transmita aquelas palavras que, muitas vezes, repetem ao longo da manhã. bom dia. o trânsito está encerrado na estrada 43 e não é bom dia para passear. melhor seria ficar em casa e comemorar a solidão, olhando as pequenas folhas que teimam em se movimentar em pequenos círculos, como se puxadas por um cordel imaginário. lá fora, vivem as pessoas e o seu estranho ceptro de relações. ligo o carro e aperto o cadafalso à pedra. muita distância separa o teu corpo das inúmeras sensações que o prazer provoca, mesmo que este seja uma forma nada subtil de enganar a solidão. aperto-me ainda mais na sensação de ter de me movimentar estrada fora e admirar as mulheres que me pedem para adormecer numa gasolineira sem o mínimo de condições. É lá que vivem as mulheres que querem partir para a estrada 43 sem, ao menos, se importarem se estão despidas ou se são apenas aquilo que a rádio espera que elas sejam: as futuras estrelas do conglomerado urbano

páro o carro. meto gasolina e vou embora. não. apetece-me levar alguém comigo, mesmo que seja inocente e não se possa deter na estranha forma das pessoas crescerem o corpo. nesta cidade, não existe dimensão nenhuma que seja de fácil percepção. tudo se resume ao modo como como as pessoas fogem. a estrada é apenas o meio. E não o fim.

chama-se violeta e tem nome de flor. e também do chakra que leva a deus. mas, talvez não seja isso porque deus não tem corpo e as flores não têm mais nenhum cheiro do que aquele que movimenta o ecossistema das plantas. apetece-me fodê-la. não a flor, mas a rapariga que tudo abarca e que tem o corpo junto à porta do carro. para onde partes. para a california. procurar ouro. não, os garimpeiros morreram quando o deserto ainda não existia e quando o jim morrison nem sequer promessa de poema. não faças o ouro, faz a carne e deixa que ela te apodreça. se tu apodreceres, foderei um cadáver e já poderei ser mais do que um homem. entra. ela entrou. escusado será dizer que não falámos nada. os meus pensamentos falaram tudo. nunca me dirigi a um cadáver mas a quem nunca tinha nada a perder, como eu.

levei-a a casa. fez as malas rapidamente apenas com o essencial. e partimos. nunca prometas nada que não possa ser cumprido, se quiseres podes cortar o mundo às postas e transformar o meu pequeno mundo numa selva de esperma e de calos. não falo nada. apenas penso. mas penso com o lado iluminado do meu rosto. olho a paisagem que se desenrola como um filme. ela adormece. a rádio ilumina as árvores que se estendem no limiar das casas. beautiful. gordon lightfoot. uma pauta no silêncio ominoso da paisagem americana. nunca é demasiado discreto pedir o amor quando ele só pode dar a solidão. aproximo a mão da pele e os olhos fecham-se e abrem-se. o olhar é uma flor desgastada que se abre quando pressionada pelo toque da pele. tudo se resume ao fogo do prazer e ao movimento da estrada.












(imagem de Chloe Sevigny e Vincent Gallo, Brown Bunny)



retiro o corpo para fora e páro o carro. o corpo e mais a pele. já é noite acendida e os carros movimentam-se como faróis no meio do mar e dos peixes. os peixes somos nós. que abrem a boca quando querem ejacular o líquido amniótico que se esquecem de escrever enquanto crianças. tiro as calças e deixo que ela engula o que restou de mim enquanto estive na casa. e o que sair será para ela uma forma encantatória de enganar a solidão. porque provavelmente o amor será apenas isso, quando engulimos e deixamos sair. e vomitamos. e voltamos ao estado do leite virginal. e deixamos que o corpo se relembre disso. até cairmos e termos a sensação de que acabámos com a inocência de quem queria apenas partir e não jogar o seu futuro nas estradas e nos corpos alheios. o corpo é só nosso quando perdoamos as nossas faltas. e se a solidão e o amor são o lamaçal da pele, nunca deixamos de ser cadáveres. e fodemos pelos nossos mortos como fodemos pelo nosso sabor metálico. mas lá estou eu a pensar. provavelmente, é mesmo amor, mas com uma diferente intensidade. a partilha da pele e do esperma. só a nossa inocência é que sabe.
Jorge Vicente

6 comentários:

rui disse...

só um senão: quando se entra no blog dispara logo a música.

aida monteiro disse...

Difícil comentar este texto.
Muito forte a forma como as palavras foram ditas.nada a acrescentar.
Muito bom mesmo.

um abraço.

isabel mendes ferreira disse...

o corpo e a pele.



__________________fabuloso este "dizer".




enorme ebraço. rendido.

alice disse...

estou muito feliz com o que aqui conseguiste, meu bom amigo. foi um prazer ler-te. posso mesmo dizer que é o meu texto favorito dos que já li teus. muito obrigada pelo que me proporcionas. um beijinho.

ana maria costa disse...

um excelente texto jorge!
Fantástico.

jorge vicente disse...

obrigado a todos, vocês é que são fantásticos. os textos nunca seriam nada sem as pessoas.

as pessoas que os lêem e as pessoas que estão dentro dele.

um abraço
jorge