22.7.09

a noite abrir-nos-á



(pintura de pierre II, dite le chevalier mignard, "apollon faisant écorcher marsyas", 1680)


12.

alguém escreveu que a trovoada
é um lugar à volta do corpo:
a pele ou um círculo de som
abrindo o espaço entre os dedos:
dizem que a sombra é um lugar
de silêncios.

alguém pensou:
abriremos o nosso corpo ao rio
e escreveremos palavras de desejo
claro: a luz e o amor não fazem
sentido fora do poema.

alguém morreu e nasceu
no preciso juntar das sílabas:
escrevo o anjo como escrevo
o tempo mau - todos os gestos
morrem e sufocam na giesta.

jorge vicente

9 comentários:

Anónimo disse...

"a luz e o amor não têm sentido fora do poema"?

ora essa.

isto só podia ter sido dito por um poeta, e não por um amante.

jorge vicente disse...

e, no fundo, todos os poetas são amantes.

um abraço
jorge vicente

Anónimo disse...

no fundo? ou apenas na palavra...?

quer o encontres, quer ele te encontre a ti: que o amor esteja contigo, não só nas palavras, mas sobretudo de corpo e alma.

Escreve, mas não te esqueças de viver. Acima de tudo, não troques as palavras do amor pelo amor.

um abraço

tecas disse...

Esse alguém foi sábio e soube fazer um belo trocar de ideias e palavras. A interpretação será do leitor.
Bji amigo poeta

jorge vicente disse...

mas que bela troca de ideias, amiga teresa. creio que, em contradição com o que disse, o amor tem todo o sentido fora do poema. aliás, faz maior sentido fora do poema, especialmente quando a maior parte das palavras não dizem nada.

mas este conjunto de poemas trata da sombra, da minha sombra (e da sombra de todos nós, evidentemente). e nada do que é humano faz sentido fora das palavras, quando estamos chegados pela nossa sombra interior.

um abraço a todos
jorge

jorge vicente disse...

* quando estamos cegados pela nossa sombra interior.

jorge vicente disse...

"noite abrir-nos-à naquilo que vomita. naquilo que fere. naquilo que fica depois. é assim tudo o que transcende a sombra. aquilo que ela representa. o múltiplo de dois. a essência vestida ao contrário.

amanhã, acordarei e escreverei um poema onde possa dizer: alimenta-me de silêncio e escreve-me um poema sem palavras. iremos juntos ao cinema e abrirei o véu da tela para que possas descortinar o céu atrás das ruas da cidade. os olhos serão pedaços de chamas deitados na pedra-mármore ou na escrita-papel. não há ruas que possam existir se não puderes abandonar a escrita e chamar pelo meu nome. a sombra só será verdadeira se o poema for o único modo de existir.

não é. a sombra é tudo aquilo que não conseguimos dizer pelo corpo. a roda. a ciranda dos pássaros. a beleza da esteva em noite de caminheiros: tudo isso existe sem a poesia e sem as palavras."

da mesma colecção, mas mais antigo

AnaMar (pseudónimo) disse...

Todos os poetas são amantes.
E na libertação de emoções gira o Mundo e...avança!
Bj

Arabica disse...

Muito bela esta tua poesia, Jorge.