2.3.09

doença e honestidade



(fotografia de bill jacobson, "5044", s/d)


"Apesar de toda a gente à minha volta se esforçar ao máximo por estar alegre e optimista, por qualquer razão o efeito em mim era precisamente o oposto. Ser subitamente empurrada para uma situação em que toda a gente se comportava de forma positiva quando estava perto de mim fez-me aperceber até que ponto deixara de fazer parte desse mundo.

Os médicos e enfermeiras que tratavam de mim não podiam ter sempre um bom dia. Deviam estar cansados de me virar na cama ou de me ouvirem queixar. Mas eu nunca vi isso. A analista que me tirava sangue devia ficar frustrada por as minhas veias serem tão difíceis de encontrar. Mas sorria sempre, por entre dentes cerrados. Muitas vezes ouvi o pessoal médico falar do lado de fora da minha porta em tons agitados. Mas depois apareciam sempre no meu quarto como se fossem actores a entrar em palco num papel bem ensaiado.

O mesmo acontecia com a minha família e os amigos. Todos tentavam ajudar dizendo-me que eu era fantástica e corajosa. Até o homem da minha vida me tratava de maneira diferente. Eu sabia que ele devia ter sentido alguma injustiça por estar envolvido com uma mulher moribunda - uma evolução com que nunca contou. No entanto, nunca mo exprimiu. Claro que a sua intenção era proteger-me, mas eu teria muito para lhe dizer. Em vez de sondar as suas emoções, que me teriam incluído no processo da vida, deixei-me sentir excluída pelo seu silêncio." (1)

beyhan lowman


(1) LOWMAN, Beyhan apud SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 263, 264.

5 comentários:

Paco Penas disse...

A dor olhada dende o punto de vista do recordo semella outra cousa. A dor en tempo real é un tratado feroz que nos fai máis humanos a todos.
Tamén como ben decia Pessoa ( que por certo sentía debilidade por Sintra)
"Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras"

alice disse...

vim mandar ao meu amigo um beijinho ribatejano. até já.

Frioleiras disse...

sinais de fogo...........lindo!

UM ABRAÇO

Teresa David disse...

PARA QUEM COMO EU PASSOU 3,5 MESES NUMA CAMA DE HOSPITAL ENTRE A VIDA E A MORTE ESTE TEXTO NÃO PODERIA VIR MAIS A PROPOSITO.
ADORO A IMAGEM QUE TENS DO MUNCH PINTOR QUE MTO ADMIRO E QUE JÁ ME SERVIU TAMBÉM PARA ILUSTRAR ALGUNS DOS MEUS ESCRITOS.
BJS
TD

jorge vicente disse...

este texto é muito bom e é bastante esclarecedor do que as pessoas sofrem quando estão doentes.

um grande abraço, amiga
jorge