20.11.08

a noite abrir-nos-á




(fotografia de dieter appelt, "waldungen", 1987)


4.

(para a asia argento)

podia ter acontecido ontem. não aconteceu. ou aconteceu, ou talvez dobrasse, ao fundo da esquina, o que parecia ser um vulto de palidez solitária, daqueles que se encontram quando a noite promete um rosto e uma persiana de abrir e um espaço entre os corpos, quase um mílimetro de sangue ou de ar corporificado. nunca é fácil escrever quando se finge com o sexo e se inventa o vício de todos os escritores que viveram e amaram debaixo de um lençol de pedra.

tu dizes: quando fodo, tudo o mais foge. árvore, plantas, folhas, cedros, todos os animais que me permito inventar. quando fodo, não consigo fingir. é mais um arrepio de alma, a única sombra de realidade que me é possível. é talvez sentir o mesmo que um actor ou uma actriz. será que eles inventam. ou fingem. ou são. ou são num sentido em que não se pode ser, em que se desaparece quando se é. talvez seja uma actriz. ou uma prostituta das palavras.

as palavras nunca se prostituem. são como as pessoas. nunca se vendem nem nunca se encolhem. deixam de estar, apenas. deixam de ser. um vulto entre o vulto. uma pessoa entre uma pessoa. um modo de escrever entre um modo de escrever. e, enquanto o sexo vibra, acha e acontece, a palavra é a única que pode violar a alma.

jorge vicente

4 comentários:

Bandida disse...

que texto magnífico!!!!!!!!



beijooooooo

FABIANA BORGIA disse...

Toda palavra viola a alma, porque toda palavra é invasiva. E tem vida própria.
Adorei o seu texto!
Hoje pequei o filme que você recomendou. Assistirei amanhã. "Too much flesh". Bjs

FABIANA BORGIA disse...

Pequei não, peguei. Foi a força da palavra.

Rogério Duarte Silva disse...

Muito bonito o teu texto. É um prazer passar por aqui...

Abraço rogério