15.8.07

In Nomine



(fotografia de Huib Limberg)

10.

atropa belladonna

tudo começou com a árvore. a minha estadia na casa. o silêncio do quarto da avó e a promessa de que lhe visitaria um dia destes. ela tem um pacto com o pó, vive rodeada de papéis velhos, daqueles que apenas nos lembramos quando surge um poema ou um recado escrito na vastidão da madrugada.

a árvore fica na parte de fora da casa. é velha, mais velha que os quadros e as fotografias que dominam todo o espaço. imagens de velhos antepassados, que mataram ou foram mortos. a jovem aristocrata que não sabia rezar as novenas e que implorava ao demo poder amar todos os homens. o jovem mestre que rasgava o corpo e que escrevia cartas de amor à divindade. a árvore, sempre a árvore, que era uma representação da riqueza e do poder. onde antes houvera um país.

na casa, não faltava nada. o brilho dos olhos da avó que eram os ramos e as raízes do meu mundo à deriva. e que não se salvaria se a árvore permanecesse como um troféu, a escrita sempre inconstante da memória.

nada permance no olhar do discípulo. apenas a madeira tingida a negro.

atropa belladonna

Jorge Vicente

4 comentários:

Lumife disse...

Já voltei. Agradeço os comentários. Vamos continuar a postar palavras de outros que desejávamos serem nossas...

Um abraço

Maria P. disse...

Excelente este post na escolha da imagem e palavras.
E a figura "avó" sempre presente em todos nós.

Um abraço*

Anónimo disse...

o teu nome.




a casa.



beijo.

/piano.

alice disse...

querido jorge, só hoje li este poema. foi a melhor coisa que me aconteceu depois de férias. muito obrigada, meu bom amigo. abraço-te.