31.8.07

The Gersch (The Gersch)

Desde tempos imemoriais que a música vem assumindo um lugar relevante na sociedade humana. Já nas sociedades tribais, se dançava para os deuses, se invocavam os poderes do céu para trazer boas colheitas. Na Idade Média, o Deus dos cristãos era venerado através do canto gregoriano. No barroco, Bach compunha as suas cantatas e deliciava quem o ouvia. Toda a história da música clássica é uma história de beleza, arte e constante inovação.

Depois, com o passar dos anos, vieram os blues, o jazz, a música contemporânea, a country, o rock. E o mundo nunca mais foi o mesmo. A música tornou-se um negócio rentável, que rende milhões. E a partir daí, experimentaram-se vários estilos, desde aproximações ao jazz feita pelo rock, etc, etc.

E, mesmo no chamado heavy metal, existem muitas inovações, apesar de muita gente considerar o heavy metal um género menor. Eu, pessoalmente, considero que essa opinião se deve à suposição comum de que o género se limita a apostar numa postura agressiva, com pouca musicalidade, e primária. E isto apesar de muitos dos melhores guitarristas da actualidade serem deste quadrante musical. Em parte, esta suposição é verdadeira. Quem for a qualquer bar metaleiro que se preze, encontra garrafas pelo chão, palavrões, algumas discussões filosóficas sobre a existência, literatura, filosofia, etc. E isto enquanto dançam ao som de Iron Maiden, Sepultura, os clássicos Led Zeppelin, Black Sabbath e o último dos Opeth. No entanto, poucos conhecem, mesmo dentro das tribos que se aglomeram dentro do metal, que existem bandas que vão para além de, que inovam, que dizem não e se rebelam contra o que consideram ser o cânone musical. No início da década de 90, houve o fenómeno do death metal e do black metal, movimento pouco comercial, mas que, na minha opinião, se perdeu porque apostou em barulho em vez de musicalidade. Claro que havia mestres dentro do género. A primeira formação dos Napalm Death era composta de músicos geniais que só faziam barulho (dentro dos Napalm, claro está). Muitos dos membros dessa primeira formação apostaram depois em projectos de música electrónica, abraçaram o free jazz, o ambient, etc. Enfim, inovaram. No entanto, nos últimos anos, tenho assistido a um verdadeiro festival de sons alternativos dentro do metal. Desde os mais experimentalistas vindos do movimento drone, como os Sun OO) e Earth, passando pelo sludge melódico dos Isis e viajando até ao Japão para assistir ao verdadeiro caos musical dos Boris, que tocam desde metal, drone, música psicadélica e rock experimental.

O disco que ouvi ontem é feito por músicos que gostam de inovar e que não gostam de se rever nos cânones. Tudo o que é feito de acordo com o cânone pode ser bom, mas cansa. Passado pouco tempo, são paus mandados das editoras e dos gostos das massas. Quem inova, é íntegro mesmo que a inovação não passe de uma constante reinvenção do ser interior. Porque, na minha opinião, a originalidade não é criar diferente, mas sim sermos iguais a nós próprios e aos nossos próprios ideiais, sendo livres de fazer o que bem nos apetecermos.

O disco em questão é de um projecto chamado The Gersch. Dois dos seus membros são criadores assumidos: B. Clifford Meyer, membro da banda de post-hardcore Isis, uma das minhas bandas favoritas dos últimos tempos, e Jonathan Ruhe, membro da banda de rock independente Ho-Ag. A música dos Gersch aposta numa sonoridade hardcore com fortes influências dos Melvins, Sleep, Black Sabbath, Kyuss, Sonic Youth, Black Flag e Pink Floyd. Ou seja, um emaranhado de sons que faz deste projecto mais uma interessantíssima aventura musical de B. Clifford Meyer.



(imagem retirada do myspace da banda)

O site deles no myspace aqui

Jorge Vicente

28.8.07

Gunther Schuller (Of Reminiscences and Reflections)



(imagem de Gunther Schuller, retirado de www.flickr.com)

O grande problema da música contemporânea é (sempre foi) a sua tendência em quase sempre apostar na atonalidade, em detrimento de um registo mais tonal, como se fazia na "tradicional" música clássica. Claro que existem excepções à regra como Michael Nyman, Wim Mertens, Arvo Part, Phillip Glass ou John Tavener, que apostam em registos mais belos, embora menos experimentais. Contudo, mesmo dentro da atonalidade, há obras ímpares (os já velhinhos Schomberg, Alban Berg, o registo de Gyorgy Ligeti que Stanley Kubrik aproveitou para 2001: Odisseia no Espaço, etc).

Com esta obra de Gunter Schuller que eu ouvi, Reminiscences and Reflections, de 1994, tal não se passa. Apesar de interessante e emocional, não me cativa como o velho Bach ou mesmo como John Tavener me cativa. Precisamos voltar às origens. Ou talvez, já voltámos, mesmo que não nos tenhamos apercebido. De facto, a música clássica tradicional não morreu. Reside agora nas bandas sonoras, nas composições de John Williams, Howard Shore, Clint Mansell, etc.



Para ouvirem um pouco de Gunther Schuller um pouco, numa obra mais interessante aqui

uma pequena biografia aqui

Jorge Vicente

27.8.07

In Nomine



(fotografia de Anna Visini)

11.

a brisa é apenas a brisa
e o vento o corpo todo

não te prometo mais do que um pouco de esperma jogado ao acaso, naquelas ruas silenciosas onde tudo o mais dorme, recordando que os sinos tocam no sentido visceral da pedra

o homem inventa a humanidade quando pensa
que a pedra se inventa na casa e a casa na
pele dourada de um anjo

tudo o mais são sensações e o prazer
imenso de estar vivo, mesmo que o
amor adormeça no caule

de uma folha branca.

Jorge Vicente

25.8.07

Albion Band (Battle of the Field)



(imagem da Albion Country Band, una das faces da Albion Band)

Depois do Festival Al-Buhera, e enquanto não aparece um poema, sabe bem recordar a Albion Band, uma das mais importantes bandas do folk-rock britânico dos anos 70. Deixo-vos uma pequena amostra do som da velha Albion aqui, embora em 1983 a banda pareça um pouco datada. No entanto, em 1973, quando gravaram Battle of the Field (entretanto, só lançado 3 anos mais tarde), a banda estava no seu auge musical. Um grande album.

Jorge Vicente

23.8.07

Festival Al-Buhera

No passado fim-de-semana (dias 18 e 19 de Agosto), assisti a um grande festival em Albufeira: o Festival Al-Buhera. Tal como o nome indica, este é um festival inter-cultural, um autêntico painel de culturas, um encontro, um melting pot das tradições africanas, brasileiras e europeias. De facto, Al-Buhera é o nome originário da cidade de Albufeira, numa altura em que os árabes dominavam os territórios a sul do Tejo.

Cheguei às 20.30, hora em que o festival começava, e comecei logo a ouvir batuques. Na rua principal de Albufeira que vai desembocar no Largo do centro, o Ballet Nacional Kora, do Senegal, dançava e dançava e incentivava o público a participar da dança. O público mostrava-se um pouco tímido, apesar de alguns darem uns passinhos. O Ballet Nacional dançou um pouco por todo o centro de Albufeira, connosco atrás e sob o olhar atento e feliz dos turistas. Quando chegaram ao local do festival, acabaram o espectáculo e começou o festival propriamente dito. Quem actuou primeiro foi a cantora brasileira Cristiane Sollari. Na minha opinião, foi uma grande desilusão. No princípio, ainda esperava alguma coisa de interessante pois via marimbas, djambés e outros instrumentos tradicionais. Mas, quando Cristiane Sollari começou a cantar, verifiquei que não se tratava mais do que uma espécie de Banda Eva meets forró e achê. Ou seja, música demasiado massificada para eu gostar. No entanto, a cantora tinha uma energia fantástica. Mas, só isso. O site de Cristiane Sollari aqui.



(foto retirada de http://www.coliseudoporto.pt)

A banda seguinte foi muito mais interessante: o grupo de Itália Spakka Napoli. O concerto foi muito interessante, a voz da cantora Monica Pinto é fantástica e eles desenvolveram uma mistura muito bem conseguida entre modernidade e tradicionalismo. O ponto alto da actuação foi quando Monica Pinto cantou uma canção tradicional napolitana. Muito bom, apesar de ter como rivais as bandas do segundo dia, que irei falar a seguir. Spakka Napoli aqui.



(imagem retirada de: http://www.elenabermudez.com/pagina/spaccaes.htm)

O segundo dia do Festival Al-Buhera foi qualquer coisa de genial. A noite começou com a actuação do Grupo de Gaitas da CEA, de Ourense, pelas ruas de Albufeira. É sempre tão bom ouvir os sons da Galiza e da música céltica, uma das minhas músicas favoritas. É como se voltasse ao tempo das cantigas d'amigo ou se viajasse um pouco, subindo as escarpas das montanhas da Galiza ou dobrando os joelhos perante os olhos de Sant'Iago. Maravilhoso. O site deles aqui



(Banda de Gaitas da CEA, retirada do site: http://www.bandadegaitasdecea.com)

Já no palco, a Banda Alhada começou a tocar. É uma banda de Albufeira e toca músicas do nosso cancioneiro. Na sua actuação, também viajei um pouco: assisti ao raiar da bela aurora no belo Alentejo, subi às Beiras e dancei um pouco, parti para a Madeira. Viajei até ao Algarve, voltei para o Alentejo para trabalhar um pouco na monda. Foi um concerto absolutamente espectacular. A Banda aqui.



(imagem retirada de: http://abandaalhada.pt.vu)

A seguir, Eneida Marta, da Guiné, ofereceu um cheirinho de África. A morna, o gumbe, a singa, mas também o Gospel, o Jazz, o Flamenco num concerto magnífico. Estava constantemente a pedir aos homens para dançarem, mas só as mulheres davam o passinho. Excepto eu, que era dos poucos homens que dançavam.Fantástico. O site de Eneida Marta aqui



(imagem do disco Considju, de Eneida Marta. Fonte: Griotsound, S.L, artista Eneida Marta. O site onde retirei a foto é: www.griotsound.com/webeneida

No final, a Brigada Víctor Jara. Um maravilhoso concerto. A voz magnífica de Catarina Moura deu o mote e cantou Portugal como ninguém, conjuntamente com os restantes músicos da Brigada, que estão a festejar 32 anos de existência. De facto, a Brigada é um dos melhores grupos portugueses e é uma das bandas que mais soube interpretar e reinterpretar a nossa tradição musical. Cantigas do Alentejo, do Minho ("Cana Verde"), Escócia, das Beiras, do Algarve, de Zeca Afonso, da Aldeia do Rio de Onor, etc, foram apenas algumas das amostras. Estou grato, profundamente grato, pela Brigada existir. Não são só os poetas que têm a obrigação de preservar a tradição portuguesa, mas também os músicos, os compositores, os cineastas, os autoresem geral. Para mantermos o espírito da nossa gente e do nosso povo, que é o maior povo do mundo. O site da Brigada aqui



(foto da Brigada, da autoria de Xico Aragão e retirada do site: http://www.brigadavictorjara.pt/fotos.html)

Jorge Vicente

20.8.07

The Tingler (William Castle)



(imagem do trailer de The Tingler, de William Castle)

Confesso: nunca vi nenhum filme de William Castle, para além deste The Tingler (1959), o filme que vi ontem em DVD. O que é de estranhar, já que William Castle é um dos nomes incortonáveis do cinema de terror dos Estados Unidos. Filmes como House on Haunted Hill(1959), 13 Ghosts (1960), Mr. Sardonicus (1961), Homicidal (1961), Strait-Jacket (1964), I Saw What You Did (1965), Rosemary's Baby (como produtor, 1968) e alguns outros são apenas alguns dos exemplos.

Os seus filmes eram de baixo orçamento, apesar de serem ambiciosamente promovidos. Um dos exemplos mais divertidos foi o filme The Tingler. Quando o filme estreou, foi colocada uma caixa gigantesca à porta do cinema, dentro da qual estaria um pequeno verme desejoso de sangue e morte. As pessoas iam em magotes só para ver a caixa. Para além disso, também o próprio filme gozava um pouco com a audiência. No início do filme, William Castle aparece a avisar a audiência que irão sentir arrepios, calafrios, pequenos espasmos de medo e que a única solução seria gritarem. Se não gritarem, The Tingler poderia matá-los. De facto, uma das premissas do filme seria que existe um pequeno verme dentro de nós, verme esse que está dentro da nossa coluna e que despoleta o efeito calafrio (tingler effect) quando sentimos medo. A única maneira que temos para nos libertar do organismo estranho seria gritarmos. Nesse filme, o médico Warren Chapin, interpretado pelo grande actor Vincent Price, está a investigar esse efeito e pensa que deverá mesmo existir um organismo vivo que possa despoletar esse efeito dentro de nós. Consegue, mais tarde, isolar o pequeno animal quando uma das suas pacientes morre. Porém, o bicho escapa-se e provoca o terror.



(imagem do filme)

Em suma, um filme interessante numa época em que os filmes de terror não se preocupavam tanto em agradar a gregos e troianos, em que o prazer do cinema e da experimentação era mais forte do que o apelo das massas. Porém, William Castle concerteza que não será o exemplo mais perfeito desse tipo de realizador já que The Tingler tem um brilho comercial em todos os seus poros. Mas é interessante, divertido e ajuda a passar bem a noite. Para quem quiser a experimentação e o apoio a jovens promessas, recomendaria Roger Corman. Bu!

Jorge Vicente

19.8.07

The Set-Up (de Robert Wise)



(imagem de The Set-Up)

Robert Wise é mundialmente conhecido pela realização de obras tão díspares como Música no Coração, West Side Story ou O Caminho das Estrelas. No entanto, para quem estiver atento, terá reparado que Wise não é apenas um fazedor de êxitos instantâneos. Muitos dos seus filmes revelam uma carga psicológica muito forte, como podemos atestar em The Set-Up, de 1949.

Neste filme, Robert Ryan desempenha o papel de Bill 'Stoker' Thompson, um pugilista de 35 anos e que se encontra na curva descendente da sua carreira. A única hipótese de ganhar alguma dignidade (a única dignidade que lhe resta) será derrotar o aspirante a estrela, 'Tiger' Nelson, interpretado por Hal Baylor. No entanto, não sabe que o combate foi viciado. O seu treinador combinou o combate com um apostador de combates local, que pensava que 'Stoker' não teria quaisquer probabilidades em ganhar o combate.



(outra imagem do filme)

O filme é excelente, pleno de humanidade. Robert Ryan é brilhante no seu papel de 'Stoker' Thompson, sabendo este que está acabado, mas mantendo a esperança de que a situação possa melhorar. Afinal de contas, que mal tem ganhar um pouco de dinheiro, o suficiente para comprar aquela casa junto ao mar, em vez de um casebre em Paradise City? É ironico reparar que, no filme, o local onde os pugilistas vão combater se chama Paradise City... Os Estados Unidos, a terra das oportunidades.



(outra imagem)

Também é de realçar o excelente papel de Audrey Totter, que desempenha o papel de esposa de 'Stoker' Thompson. Ela é o anjo da família, a mulher que o apoia incondicionalmente, apesar de não querer que ele combata. E, apesar de não ir aos combates apoiá-lo. Outos personagens são, também, memoráveis: o pugilista com problemas físicos que teima em combater; o novato que finge ser forte, mas está com medo; o pugilista senhor de si, que pensa positivo e que vence sempre. Enfim, toda uma galeria de seres humanos com os seus problemas, a sua maneira de ver o mundo, de carne e osso, o que não acontece na maior parte dos filmes.

Muitas das cenas ficam na nossa pele. Uma que me marcou profundamente foi a cena do desespero da esposa de 'Stoker' Thompson que percorria, perdida, as luzes da cidade. O constante jogo de luzes entre o néon e o escuro foi brilhante, especialmente quando ela rasga o bilhete no alto da ponte. Para além dessa cena, a fantástica cena do combate entre 'Stoker' e 'Tiger' Nelson, bela na sua rudeza; a cena final e o abraço desencantado e triste de 'Stoker' à esposa.



(outra imagem)


Foram talvez estas as razões que levaram Martin Scorsese a considerar The Set-Up como uma das maiores influências para O Touro Enraivecido, um dos principais filmes de Scorsese. Aliás, para quem comprar o DVD, há de notar que Scorsese aparece no comentário ao filme. Enfim, um clássico.

The Set-Up no youtube aqui

Jorge Vicente