PoPoetry
(pintura de henri fantin-latour, "la rêverie", s/d)
5.
cubo
(para o eugénio outeiro e o vincenzo natali)
pergunto-te a ti, sara, se da voz
te fazes labirinto e procura incessante
dos dedos. pergunto-te se sentes
dúvidas, se amas a água, o cubo
fechado, o não sei quê de irracional
que se encontra no interior do
ventre materno.
pergunto-te se calas os homens
quando te aproximas com um
alguidar branco, às vezes é difícil
amar quando as perguntas que
fazemos não formam eco: a empatia
do corpo e dos olhos.
pergunto-te, sara, se a fortaleza
existe, se somos estrelas ou bem-
aventurados no interior de um
labirinto sem chão: o ventre materno
permeia a água e dá um pouco
de si à chuva que cai abundantemente
da minha / tua janela.
pergunto-te se os rios que correm
fazem perguntas: um poema não
precisa de respostas nem de velhos
pontos de interrogação que evitam
a sua fragilidade intocada.
todo o labirinto / cubo / espaço mágico
é um misto de peles e de pontos
sagrados: não se permite conhecer,
apenas sobrevoar pelo dom da vida.
jorge vicente
