14.6.07

In Nomine


(quadro de John Ruskin, "Talloires, Lake Of Annecy", s/d)

3.
"na noite em que esta infância caberia,
noite haveria sempre" (1)

Lêdo Ivo


na mais antiga noite do mundo,
silêncio haveria sempre,
silêncio de palavras,
como se a rocha ainda não esvaziasse
o sentido da pele,

da pele clara e seca da terra,
da terra simples e boa
que os antigos cultivavam ao raiar da treva.

na mais antiga noite do mundo,
só restaria a pedra e o mar
encapelado da palavra
encoberta.

Jorge Vicente


(1) IVO, Lêdo - Uma lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1962. p. 36.

13.6.07

O Bombeiro (Lêdo Ivo)


(quadro de Paul Gauguin, "Sermon")

"Os vespertinos de hoje divulgam ràpidamente a morte do
[bombeiro João Cristóvão da Silva
ocorrida durante o violento incêndio de ontem.
Nunca mais o veremos em seu carro vermelho
junto a escadas que subiam para o céu e para o fogo.

No Méier, alguém chorará o companheiro morto.

Ele lutava contra o fogo. E amava o perigo.
Salvou crianças, e uma fotografia o surpreendeu sobre um telhado
[que desabava.
Era o marinheiro do fogo.

No Méier, restará a companheiraque João Cristóvão da Silva acariciava com as suas mãos
[ainda quentes
de incontáveis incêndios dominados,
um talher curvado sobre o silêncio
e os vespertinos onde se fala
daquele que a morte roubou ao feérico anonimato.

João Cristóvão da Silva, a única vítima do impressionante
[incêndio de ontem,
evitou que rosas fossem devolvidas pelo fogo à sua presença
[incriada
e trabalhava imparcialmente, salvando ao mesmo tempo o piano
[e a fruta, os arquivos judiciários e as cadeiras de balanço.
Purificado pelo fogo e citado pela ordem do dia,
hoje ele é apenas uma composição mineral.

De agora em diante, quando houver incendios,
haverá no carro vermelho dos bombeiros um lugar vazio.

Em memória desse profissional do fogo ontem desaparecido
numa igreja do Méier alguém se ajoelherá
e pedirá a Deus que livre o bombeiro
do outro fogo" (1)

Lêdo Ivo (1924 - )


(1) IVO, Lêdo - Uma lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1962. p. 39, 40.


Lêdo Ivo é, segundo as palavras de Wilson Martins, o responsável pelo regresso da emoção à poesia brasileira que estava, na altura, impregnada de certos tiques modernistas que a tornavam mais técnica e escolar. O seu primeiro livro de poesias, As Imaginações (1944) foi importante para esse reavivar emocional. Lêdo Ivo foi sempre bastante crítico da poesia divulgada pela Geração de 45, que considerava um mostruário de banalidades, falsa profundidade e academismo.(retirado do site http://www.revista.agulha.nom.br/wilsonmartins136.html)


Jorge Vicente

10.6.07

Jean-Arthur Rimbaud




(quadro de Oskar Kokoschka, "Die Windsbraut", 1913)


"Je suis maître en fanstasmagories" (1)



Jean-Arthur Rimbaud (1854-1891)





















(1) RIMBAUD, Jean-Arthur apud IVO, Lêdo - Uma lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1962. p. 10.

9.6.07

In Nomine



(quadro de Toulouse-Lautrec)

2.
procuro corpo nevoeiro
na imensidão da pele,

como se fosses simulacro
de carne e de fogo

o verso dobrado no
espanto da língua.

são as palavras, e não o toque,
quem vibra na destruição

do prazer.

Jorge Vicente





His Dark Materials







(imagem do filme The Golden Compass, de Chris Weitz, a estrear este ano)


e então lyra sobrevoou o espaço entre os dois mundos, com pantalaimon ao seu lado. lyra e o seu pequeno génio, uma espécie de daimon moderno, trazida aos recantos da fantasia contemporânea, pela mão de philip pullman

o livro em questão chama-se mundos paralelos: os reinos do norte e é uma pequena obra-prima no domínio da literatura de fantasia. muito imaginativa, reúne em si a teologia, a filosofia, a física quântica, o livro de aventuras, a fantasia propriamente dita, etc. e é recomendado a miúdos e graúdos e quem se quiser embranhar nos reinos do sonho e da imaginação

porque o Pó inunda-nos e porque somos alimentados pelo nosso pequeno génio (daimon) que nos ama sem vacilar

Jorge Vicente

7.6.07

Philip Pullman




(quadro de Otto Dix, "Friedhof In Untermhaus", 1913)

"os seres humanos não conseguem ver uma coisa sem desejarem imediatamente destruí-la. Isso é o pecado original"(1)

Philip Pullman (1946 - )











(1) PULLMAN, Philip - Mundos paralelos: os reinos do norte. 4ª ed. Barcarena, Presença, 2004. ISBN 972-23-3059-4. p. 323.

3.6.07

In Nomine




(fotografia de Florence Henri, "Jeanne Lanvin Perfume", 1929)


1.
os homens são donos do tempo breve, da eternidade que vibra como promessa de pegada

tudo o resto são as rochas. e a areia. e o movimento de dois amantes que ouvi amar quando fogo

e terra

e espuma

e todas as palavras que escrevi


no limiar da ábside


negra

Jorge Vicente


P.S. Estes poemas são uma espécie de exercício poético onde tento não constranger as palavras. Se soar bem, óptimo. Se não, não importa.