15.2.16

[perguntem às altas ondas]

perguntem às altas ondas a alvura de uma alva noite
a leveza branca num branco aconchego
o alto minho na alta montanha mais alta

o bom jesus a boa noite
a boa estrela na branca saudade
são leves são leves as frágeis estrelas


os frágeis ossos
no osso do poema mais frágil.

Jorge Vicente

7.1.16

Casa de la Ronda



2.
todo o meu poema se inscreve nesta casa. com os seus objectos pessoais, com toda a sua humanidade, com gente-adentro abrindo ímpetos de potência sobre o corpo.

somos uma grande família, um refúgio líquido entre as mães. um lugar sem centro e onde poderemos [com verdade] escrever: en las ribas el rio maior se abre entre nosotros. e entre nosotros la ronda se vibra como un arbol de estrellas.

Jorge Vicente

Casa de la ronda



1.
já tantos de nós escreveram isto. ou escreveram melhor. ou com mais intensidade. ou com a força de um país aberto às suas próprias veias.
já tantos de nós decidiram: a nomeação de uma casa obedece a ordens gramaticais e a uma inversão do sentido. o que poderá ser colocado no lugar das palavras? o meu próprio corpo? uma triste [e alegre] dimensão nova?
já tantos de nós abriram o seu próprio livro. e decidiram que não pode ser assim. uma casa tem de ser de todos. mesmo daqueles que ardem na alegria dos infernos.

Jorge Vicente

21.10.14

Poema




(fotografia de nila oakes)





carrego uma nuvem às costas

como se dependesse de mim

permanecer no silêncio



naquele silêncio

que não se quer rígido

esquecendo-se do propósito de

existir e de alimentar o fogo



sossega-me ver uma casa ao

longe, adormecida no ceptro

de terra abandonada



uma casa caiada de branco, todas

as casas o são, mesmo que os olhos

roubem a realidade

e deus a ignore.



a memória verga todas as coisas,

mesmo o silencioso movimento

da não-existência.



tudo é ilusório.



a casa abraça

a ferrugem dos corpos caiados

de gestos.   os dedos movimentam-se

numa sinfonia de trevas.


Jorge Vicente






28.8.14

Cadernos de Gethsemani

1.


desceram das montanhas os primeiros animais, as primeiras aves, as mães que, nas casas
dos filhos, casam e cozem o pão;

desceram das montanhas a flauta e a voz humana,
essa imensa cosmologia
mais breve que o voo de uma libélula
e infinitamente mais silenciosa [ou triste]
que a humana escritura dos deuses.


Jorge Vicente

26.2.14

Transição

3.

é um Canto
ou uma posterior humanidade esta que escreve
"estou aqui",

que habita entre silêncios brancos
entre uma pegada de animal
e um corpo [para sempre animado],

um corpo desejoso de escrita
ou da destreza de um verso:
o-leve-bater de um ofício-ainda-novo:

a ânsia monástica da vivência.

Jorge Vicente

25.2.14

Transição


2.

não tenho biografia. nem um pouco desse ajuntamento fácil de acontecimentos e experiências,
dessa história, dessa memória narrada que me faz a mim [e aos outros poetas]

não tenho nada disso que se chama idade cronológica
idade fértil experiência de vida hora de entrar e sair do poema

não tenho nem nunca tive história
           [e nem posso ter]

porque a posteridade é uma faca que agarra a pele
e a vivência não pode ser deste tempo
nem do outro que passou,

senão duma presença
encorporada em tempo cenestésico
que acende.


Jorge Vicente