26.2.14

Transição

3.

é um Canto
ou uma posterior humanidade esta que escreve
"estou aqui",

que habita entre silêncios brancos
entre uma pegada de animal
e um corpo [para sempre animado],

um corpo desejoso de escrita
ou da destreza de um verso:
o-leve-bater de um ofício-ainda-novo:

a ânsia monástica da vivência.

Jorge Vicente

25.2.14

Transição


2.

não tenho biografia. nem um pouco desse ajuntamento fácil de acontecimentos e experiências,
dessa história, dessa memória narrada que me faz a mim [e aos outros poetas]

não tenho nada disso que se chama idade cronológica
idade fértil experiência de vida hora de entrar e sair do poema

não tenho nem nunca tive história
           [e nem posso ter]

porque a posteridade é uma faca que agarra a pele
e a vivência não pode ser deste tempo
nem do outro que passou,

senão duma presença
encorporada em tempo cenestésico
que acende.


Jorge Vicente

18.2.14

Transição


neste livro
o mapa-mundo

uma pele de animal
ausente de palavras.

Jorge Vicente

5.11.13

o movimento humano

(escultura de emilio greco, "grande bagnante II" (s/d)

"A vivência humana é extremamente rica e ampla, a própria linguagem socializada não é por si suficiente para traduzir essa riqueza das impressões vividas (...).

O movimento enriquece a linguagem e o corpo escolhe a palavra. Foi a melodia do gesto que socializou a forma de comunicação não-verbal e verbal (...).

A liberdade do movimento é a mais pura, é mediante ao gesto que a subjectividade alcança a vida. O movimento é a expressão mais sociológica da liberdade individual. A liberdade é uma conquista. É o movimento que possibilita e assegura sucessivamente a autonomia e a independência". (1)

vítor da fonseca

(1) FONSECA, Vítor da Fonseca in GÓIS, Cezar Wagner de Lima - Biodança: identidade e vivência. Fortaleza: Edições Instituto Paulo Freire do Ceará, 2002. p. 100.

17.4.13

yoga de corpo e alma




DIVULGAÇÃO

Para quem busca serenidade e plenitude, tanto no corpo como na mente: Yoga de corpo e alma!
Talvez uma ponte entre a poesia das palavras e a poesia do corpo, onde escutar o nosso coração e deixar fluir livremente a energia é fundamental!
Uma prática integral, dinâmica e diversificada com posturas, mantras, exercícios respiratórios, momentos de pausa e breves meditações. Para assim sentir a mudança no corpo e o reencontro com a alma, conquistando a cada passo mais vitalidade e flexibilidade aos níveis físico, mental, emocional e espiritual.
E então, com vontade de praticar? Podem experimentar uma aula gratuita.

Contacto Lina Afonso: decorpoealma.yoga@hotmail.com, 

icon facebook.jpg Yoga de Corpo e Alma, 969994141

11.4.13

polly jean



(desenho de polly jean harvey feito por grozdana tilotta, retirado daqui)



polly jean tinha um pequeno pássaro
que voava um pouco acima dos seus olhos:
dizia-lhe segredava-lhe bem junto aos
versos que o poeta não tem nome.
quando nasce, amanhece junto à
janela que fica ao bordo do cais,
perto dos bares, dos botequins da
cidade velha (não havia palavras
nessa altura, apenas o silêncio da
palavra pai ou da palavra mãe).

polly jean escrevia e o pequeno pássaro
sentava-se junto ao trono. um pequeno
pedaço de madeira que ornamentava
a cama desarrumada e os olhos desfeitos.
para onde olhas, para onde escreves
e por onde o teu corpo passa. junto à
cidade, há apenas cadeiras onde nos
podemos sentar e mesas vazias
onde te podes esconder do
rosto das pessoas.

o pássaro cantava e apenas uma
sombra alumiava o quarto: poderíamos
dizer que na cidade anoitecia e que a
liturgia dos pequenos corpos e das
grandes pessoas alumiava o espanto
dos poetas. se eu puder amar (escreveu
polly jean no seu diário de maio de noventa
e oito), traz-me um bocado de pele
para eu brincar ao amor.

jorge vicente

27.2.13

meditação sobre fotografia de alexander babic



(fotografia de alexander babic, retirado daqui)


3.

MEDITAÇÃO SOBRE FOTOGRAFIA DE ALEXANDER BABIC


se existe um corpo maior que a dimensão
dos mapas, não poderá ser o meu
porque o meu não se limita à rasura
do papel, à iluminura das casas,
ao tenebroso, mas simples deambular
das hordes angelicais.

nenhum sopro me responde,
nem sairá de mim qualquer poema
que invoque outro poema.
apenas o espaço entre os corpos
e a clausura da terra,

que fica lá em baixo,
revestida de um lírio pequeno,
o mesmo que fechado é aos
acordes dos motores
e das palavras que fecham
e abrem a sede das estações.

jorge vicente