yoga de corpo e alma
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escrito por jorge vicente às 17:25 8 comments
(desenho de polly jean harvey feito por grozdana tilotta, retirado daqui)
polly jean tinha um pequeno pássaro
que voava um pouco acima dos seus olhos:
dizia-lhe segredava-lhe bem junto aos
versos que o poeta não tem nome.
quando nasce, amanhece junto à
janela que fica ao bordo do cais,
perto dos bares, dos botequins da
cidade velha (não havia palavras
nessa altura, apenas o silêncio da
palavra pai ou da palavra mãe).
polly jean escrevia e o pequeno pássaro
sentava-se junto ao trono. um pequeno
pedaço de madeira que ornamentava
a cama desarrumada e os olhos desfeitos.
para onde olhas, para onde escreves
e por onde o teu corpo passa. junto à
cidade, há apenas cadeiras onde nos
podemos sentar e mesas vazias
onde te podes esconder do
rosto das pessoas.
o pássaro cantava e apenas uma
sombra alumiava o quarto: poderíamos
dizer que na cidade anoitecia e que a
liturgia dos pequenos corpos e das
grandes pessoas alumiava o espanto
dos poetas. se eu puder amar (escreveu
polly jean no seu diário de maio de noventa
e oito), traz-me um bocado de pele
para eu brincar ao amor.
jorge vicente
escrito por jorge vicente às 11:17 2 comments
(fotografia de alexander babic, retirado daqui)
3.
MEDITAÇÃO SOBRE FOTOGRAFIA DE ALEXANDER BABIC
se existe um corpo maior que a dimensão
dos mapas, não poderá ser o meu
porque o meu não se limita à rasura
do papel, à iluminura das casas,
ao tenebroso, mas simples deambular
das hordes angelicais.
nenhum sopro me responde,
nem sairá de mim qualquer poema
que invoque outro poema.
apenas o espaço entre os corpos
e a clausura da terra,
que fica lá em baixo,
revestida de um lírio pequeno,
o mesmo que fechado é aos
acordes dos motores
e das palavras que fecham
e abrem a sede das estações.
jorge vicente
escrito por jorge vicente às 03:54 5 comments
(larkin grimm, retirado daqui)
2.
POEMA PARA LARKIN GRIMM
certa noite, o devandra disse-te:
a tua música é como uma prisão
é como estar fechado num lugar
muito escuro e ouvir o som
eu digo-te: nada do que tu cantas
ou exprimes pela voz pode ser uma
prisão, talvez um ponto pequeno
na grande planície branca
(ou um ponto/deserto, uma esfera
demoníaca que dissesse ou soubesse
de tudo)
certa noite, disseste ao devandra:
faz-me uma tatuagem no braço direito,
afinal és o arauto de deus, tens uma
barba plena e todos os homens que forem
como tu saltarão por cima de silvas amarelas
e cantarão da voz e dos caminhos do sal
porém, nada disso me interessa
quando ouço a grande voz americana
soletrando uivos de coiote
é provavelmente porque sou animal
de poder numa cidade em desintegração.
jorge vicente
escrito por jorge vicente às 00:41 4 comments
(estátua de andré banha, "segurei-te o pôr do sol", 2006, retirado deste site: http://contemporaneamagazine.blogspot.com/2008_05_01_archive.html)
1.
uma noite segurei-te amanhecido
mas, das tômbolas dos teus olhos,
vários poemas ficaram:
não os meus
nem aqueles que nunca foram escritos,
apenas o som
e o caminhar do sol em direcção à casa.
jorge vicente
escrito por jorge vicente às 16:09 6 comments
escrito por jorge vicente às 18:31 8 comments
escrito por jorge vicente às 15:58 2 comments