27.2.13

meditação sobre fotografia de alexander babic



(fotografia de alexander babic, retirado daqui)


3.

MEDITAÇÃO SOBRE FOTOGRAFIA DE ALEXANDER BABIC


se existe um corpo maior que a dimensão
dos mapas, não poderá ser o meu
porque o meu não se limita à rasura
do papel, à iluminura das casas,
ao tenebroso, mas simples deambular
das hordes angelicais.

nenhum sopro me responde,
nem sairá de mim qualquer poema
que invoque outro poema.
apenas o espaço entre os corpos
e a clausura da terra,

que fica lá em baixo,
revestida de um lírio pequeno,
o mesmo que fechado é aos
acordes dos motores
e das palavras que fecham
e abrem a sede das estações.

jorge vicente

30.1.13

poema



(larkin grimm, retirado daqui)


2.

POEMA PARA LARKIN GRIMM

certa noite, o devandra disse-te:
a tua música é como uma prisão
é como estar fechado num lugar
muito escuro e ouvir o som

eu digo-te: nada do que tu cantas
ou exprimes pela voz pode ser uma
prisão, talvez um ponto pequeno
na grande planície branca

(ou um ponto/deserto, uma esfera
demoníaca que dissesse ou soubesse
de tudo)

certa noite, disseste ao devandra:
faz-me uma tatuagem no braço direito,
afinal és o arauto de deus, tens uma
barba plena e todos os homens que forem
como tu saltarão por cima de silvas amarelas
e cantarão da voz e dos caminhos do sal

porém, nada disso me interessa
quando ouço a grande voz americana
soletrando uivos de coiote

é provavelmente porque sou animal
de poder numa cidade em desintegração.

jorge vicente

2.1.13

Poemas




(estátua de andré banha, "segurei-te o pôr do sol", 2006, retirado deste site: http://contemporaneamagazine.blogspot.com/2008_05_01_archive.html)

1.


uma noite segurei-te amanhecido
mas, das tômbolas dos teus olhos,
vários poemas ficaram:

não os meus
nem aqueles que nunca foram escritos,

apenas o som
e o caminhar do sol em direcção à casa.

jorge vicente

24.10.12

a bondade





(quadro de will barnet, "youth" (1970)


"O amante da bondade, porém, jamais pode permitir-se viver uma vida solitária; e, no entanto, a vida que ele passa na companhia dos outros e por amor aos outros deve permanecer essencialmente sem testemunhas; falta-lhe, acima de tudo, a companhia de si próprio. Não é um homem solitário, mas isolado; embora conviva com outros, deve ocultar-se deles e não pode sequer permitir-se a si mesmo ver o que está fazendo. O filósofo pode sempre contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as obras não podem ser companhia para ninguém: devem ser esquecidas a partir do instante em que são praticadas, porque até mesmo a memória delas destrói a sua qualidade de «bondade». Além disto, o acto de pensar, por poder ser lembrado, pode cristalizar-se em pensamentos; e os pensamentos, como todas as coisas que devem a sua existência à memória, podem ser transformados em objectos tangíveis que, como a página ou o livro impresso, se tornam parte do artifício humano. As boas obras, por deverem ser imediatamente esquecidas, nunca podem tornar-se parte do mundo; vêm e vão sem deixar vestígios; e não pertencem claramente a este mundo.

É este carácter extramundano das boas obras que faz do amante da bondade uma figura essencialmente religiosa e torna a bondade, como a sabedoria na antiguidade, uma qualidade essencialmente inumana e sobre-humana. E, no entanto, o amor à bondade, ao contrário do amor à sabedoria, não se limita à experiência de poucos, da mesma forma que o isolamento, ao contrário da solidão, está ao alcance da experiência de todos os homens." (1)

(Hannah Arendt)


(1) ARENDT, Hannah - A condição humana. Lisboa: Relógio d'Água, 2001. ISBN 972-708-637-3.  p 89-90.

17.10.12

"long black train" (lee hazlewood)





(fotografia de Jean-Christian Bourcart, da série "traffic" (1999-2003)


"Back when I was ten Jim was my best friend
We'd go down to the station and watched the trains come in
The long black train the long black train

Some day I told my friend we'll ride that train and then
We'll make a fortune for ourselves and we'll ride it home again
The long black train the long black train

As we grew older Jim grew wilder than the wind
He robbed the bank in our hometown and they sent me after him
On the long black train the long black train

And so I cut my friend twelve men convicted him
Ninety nine years is what he got I'll bet it seems like a hundred to Jim
He'll miss the long black train the long black train" (1)

Lee Hazlewood



(1) retirado do cd de Lee Hazlewood, Trouble Is a Lonesome Town (1963)

9.10.12

"interlúdio" (azevedo silva)



(pintura de marc chagall, "sisyphus, from l'odyssee II" (1974)

"Eco.
Eu.
Só eu.
Sonha.
Só eu.
Ser eu.
Só eu.
Ego.
Eco.
Eu." (1)

Azevedo Silva


(1) retirado do CD de Azevedo Silva, Autista (2008)

24.9.12

A vivência



(pintura de henri matisse, "la danse" (1910)


"Que é a vivência? A vivência É. A vivência tem sentido, a vivência não separa minha alma da alma cósmica, como fazia o paradigma cosmocêntrico; a vivência não afasta meu corpo do meu espírito como fazia o paradigma teocêntrico; a vivência não hierarquiza a criação, não me torna dicotómico, como o faz o paradigma antropocêntrico. A vivência me funde com a Vida, me faz biocêntrico.(...)

Antes da vivência a Biodança é epistemologia (é sistema), é metodologia (tem uma teoria do método), é o «para si» (conhecimento de algo que está fora), a representação (símbolo). Ao entrar na vivência a Biodança desaparece, paradoxalmente abre a porta por onde ela mesma vai a desaparecer, para dar lugar à vivência. E a vivência é Ser. Afirmar o SER é ser ontológico, porém ontologia da vivência: simplesmente afirmando que o SER, que é auto-evidente, tem sentido em si mesmo, o ser estrutura estruturante: Bios". (1)

Custódio L. S. Almeida


(1) ALMEIDA, Custódio L. S. apud GÓIS, Cezar Wagner de Lima - Biodança: identidade e vivência. Fortaleza: Edições Instituto Paulo Freire do Ceará, 2002. p. 70.