30.1.13

poema



(larkin grimm, retirado daqui)


2.

POEMA PARA LARKIN GRIMM

certa noite, o devandra disse-te:
a tua música é como uma prisão
é como estar fechado num lugar
muito escuro e ouvir o som

eu digo-te: nada do que tu cantas
ou exprimes pela voz pode ser uma
prisão, talvez um ponto pequeno
na grande planície branca

(ou um ponto/deserto, uma esfera
demoníaca que dissesse ou soubesse
de tudo)

certa noite, disseste ao devandra:
faz-me uma tatuagem no braço direito,
afinal és o arauto de deus, tens uma
barba plena e todos os homens que forem
como tu saltarão por cima de silvas amarelas
e cantarão da voz e dos caminhos do sal

porém, nada disso me interessa
quando ouço a grande voz americana
soletrando uivos de coiote

é provavelmente porque sou animal
de poder numa cidade em desintegração.

jorge vicente

2.1.13

Poemas




(estátua de andré banha, "segurei-te o pôr do sol", 2006, retirado deste site: http://contemporaneamagazine.blogspot.com/2008_05_01_archive.html)

1.


uma noite segurei-te amanhecido
mas, das tômbolas dos teus olhos,
vários poemas ficaram:

não os meus
nem aqueles que nunca foram escritos,

apenas o som
e o caminhar do sol em direcção à casa.

jorge vicente

24.10.12

a bondade





(quadro de will barnet, "youth" (1970)


"O amante da bondade, porém, jamais pode permitir-se viver uma vida solitária; e, no entanto, a vida que ele passa na companhia dos outros e por amor aos outros deve permanecer essencialmente sem testemunhas; falta-lhe, acima de tudo, a companhia de si próprio. Não é um homem solitário, mas isolado; embora conviva com outros, deve ocultar-se deles e não pode sequer permitir-se a si mesmo ver o que está fazendo. O filósofo pode sempre contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as obras não podem ser companhia para ninguém: devem ser esquecidas a partir do instante em que são praticadas, porque até mesmo a memória delas destrói a sua qualidade de «bondade». Além disto, o acto de pensar, por poder ser lembrado, pode cristalizar-se em pensamentos; e os pensamentos, como todas as coisas que devem a sua existência à memória, podem ser transformados em objectos tangíveis que, como a página ou o livro impresso, se tornam parte do artifício humano. As boas obras, por deverem ser imediatamente esquecidas, nunca podem tornar-se parte do mundo; vêm e vão sem deixar vestígios; e não pertencem claramente a este mundo.

É este carácter extramundano das boas obras que faz do amante da bondade uma figura essencialmente religiosa e torna a bondade, como a sabedoria na antiguidade, uma qualidade essencialmente inumana e sobre-humana. E, no entanto, o amor à bondade, ao contrário do amor à sabedoria, não se limita à experiência de poucos, da mesma forma que o isolamento, ao contrário da solidão, está ao alcance da experiência de todos os homens." (1)

(Hannah Arendt)


(1) ARENDT, Hannah - A condição humana. Lisboa: Relógio d'Água, 2001. ISBN 972-708-637-3.  p 89-90.

17.10.12

"long black train" (lee hazlewood)





(fotografia de Jean-Christian Bourcart, da série "traffic" (1999-2003)


"Back when I was ten Jim was my best friend
We'd go down to the station and watched the trains come in
The long black train the long black train

Some day I told my friend we'll ride that train and then
We'll make a fortune for ourselves and we'll ride it home again
The long black train the long black train

As we grew older Jim grew wilder than the wind
He robbed the bank in our hometown and they sent me after him
On the long black train the long black train

And so I cut my friend twelve men convicted him
Ninety nine years is what he got I'll bet it seems like a hundred to Jim
He'll miss the long black train the long black train" (1)

Lee Hazlewood



(1) retirado do cd de Lee Hazlewood, Trouble Is a Lonesome Town (1963)

9.10.12

"interlúdio" (azevedo silva)



(pintura de marc chagall, "sisyphus, from l'odyssee II" (1974)

"Eco.
Eu.
Só eu.
Sonha.
Só eu.
Ser eu.
Só eu.
Ego.
Eco.
Eu." (1)

Azevedo Silva


(1) retirado do CD de Azevedo Silva, Autista (2008)

24.9.12

A vivência



(pintura de henri matisse, "la danse" (1910)


"Que é a vivência? A vivência É. A vivência tem sentido, a vivência não separa minha alma da alma cósmica, como fazia o paradigma cosmocêntrico; a vivência não afasta meu corpo do meu espírito como fazia o paradigma teocêntrico; a vivência não hierarquiza a criação, não me torna dicotómico, como o faz o paradigma antropocêntrico. A vivência me funde com a Vida, me faz biocêntrico.(...)

Antes da vivência a Biodança é epistemologia (é sistema), é metodologia (tem uma teoria do método), é o «para si» (conhecimento de algo que está fora), a representação (símbolo). Ao entrar na vivência a Biodança desaparece, paradoxalmente abre a porta por onde ela mesma vai a desaparecer, para dar lugar à vivência. E a vivência é Ser. Afirmar o SER é ser ontológico, porém ontologia da vivência: simplesmente afirmando que o SER, que é auto-evidente, tem sentido em si mesmo, o ser estrutura estruturante: Bios". (1)

Custódio L. S. Almeida


(1) ALMEIDA, Custódio L. S. apud GÓIS, Cezar Wagner de Lima - Biodança: identidade e vivência. Fortaleza: Edições Instituto Paulo Freire do Ceará, 2002. p. 70.

10.9.12

Baraka e a transcendência da condição humana




(imagem do filme Baraka, de Ron Fricke)


Depois de alguns dias de completo repouso nos ares solarengos do Algarve, onde pude descansar, ler, estudar, escrever mais um pouco a minha dissertação de mestrado (que, nas últimas semanas, me tem furtado a outros estudos), sabe bem voltar a casa e poder partilhar com vocês este maravilhoso filme de Ron Fricke, datado de 1992. O filme tem o nome de Baraka e foi-me recomendado por uma amiga minha da Biodanza. Em boa hora o vi. É realmente maravilhoso e, embora não seja um filme directamente relacionado com a problemática do meio ambiente em sentido estrito, está-lhe relacionada num sentido espiritual e profundamente transcendente. Este filme trata da condição humana, das múltiplas particularidades que a condição humana se revela em todos os pólos do nosso universo. A paisagem branca e clara do Alasca, os terrenos inexplorados, aqueles locais ainda não visitados pelo humano; mas também as múltiplas manifestações da fé, as múltiplas manifestações da cultura humana: as religiões, a dança, o olhar de quem vive de modo natural e de quem se alimenta do que a terra dá; as múltiplas manifestações do humano como destruidor do mundo natural, seja através das cidades, das fábricas, do desrespeito pela vida de todos nós e pela vida dos nossos companheiros animais-plantas-seres vivos; as manifestações do mal seja através da poluição, da tortura, da guerra.

Tudo isso é parte do filme. Tudo isso é parte de quem nós somos. E o convite do filme é: em que mundo desejamos habitar? Que sorriso devemos levar ao mundo? Que pedaço desse mundo será sempre nosso? O que fazer para salvar a nossa humanidade e para levarmos a nossa humanidade no sentido da transcendência. Podemos fazer tanto e podemos ser tão grandes nessa nossa caminhada humana em direcção à Vida!

Abracem este filme aqui em baixo:






Um abraço para todos
Jorge Vicente

Como todos sabem, este post está inserido na iniciativa Teia Ambiental, idealizadas por Flora Maria e Gilberto da Cunha Gonçalves. O blog da Flora: http://floradaserra.blogspot.com/