(quadro de gottfried helnwein, "untitled (the disasters of war 6)", 2007)
16.
entre as montanhas do velebit e os lagos de plitvice, os maravilhosos lagos de água silenciosa e pura que tornam famosa toda a região nordeste da croácia,
entre essas cordilheiras brancas, que protegem a costa do vento, e os lagos: imensos socalcos de árvores e jardins, turistas e jovens homens de negócios,
entre o cume do mundo e o ar da chuva que consome plantas, animais, seres do interior da terra e dos livros de fantasmas de toda a região norte,
entre esse mundo e o outro mais perfeito, muitas campas rasas escolhem o seu lugar junto à estrada.
dizem: não houve dinheiro para fazer um jazigo que pudesse celebrar a vida daqueles que, em tempos, trabalhavam de solo a solo e que amavam, dançavam, riam e comiam no ajuntamento das estrelas,
entre as montanhas do mundo mais à frente e dos lagos que tocavam os seus dedos.
dizem: não houve tempo para celebrar e para regressar à verdadeira génese das plantas e dos solos. apenas se amontoam crianças, velhos e os homens que amavam e riam e dormiam no colo dos pais.
entre as montanhas do velebit e as águas de plitvice, não há mais lugares de memória.
é interessante: a grande maioria dos filmes de animação que vejo considero-os excelentes, o que não se passa com as outras produções de hollywood. talvez porque, no cinema de animação, estamos mais perto daquele estádio em que fomos felizes ou em que poderíamos ser felizes: o estádio da infância, o estádio em que somos mais pequenos, mais puros e, por isso, mais sujeitos ao enamoramento da vida. o cinema de animação faz-nos retornar, assim, a um período primário, original, visceral, um estado de infância da consciência. e, assim, todo o desenho animado é um retornar a essa fase.
no meu caso, esse retornar assume, muitas vezes, a forma do "scrat" da idade do gelo, do cão sábio gromit, do burro de shrek ou da intrepidez e alegria de viver de alex, o leão dançarino de madagascar: escape 2 africa. confesso: ainda não vi o primeiro, parti logo para o segundo e logo me tomei de amores pela paisagem do kilimanjaro, que aparece nos primeiros momentos do filme. mas mais não vou dizer a não ser que em áfrica os animais também dançam e fazem coreografias. ainda mais deslumbrantes que nós, adultos.