26.12.08

edward burns, sidewalks of new york



(rosario dawson e edward burns, sidewalks of new york)

um óptimo filme acerca da sexualidade nos dias de hoje: sidewalks of new york, realizado por edward burns, jovem actor e realizador nova-iorquino. foi o filme que vi ontem. e gostei bastante.

as histórias do filme são muito simples: griffin, um dentista e polígamo inveterado, tem uma amante há 6 meses; annie, a sua mulher, pensa que ele lhe é fiel e acredita piamente na importância da fidelidade e do casamento cristão, mesmo que esse modelo de casamento e a tal "fidelidade" esteja em crise; maria é uma professora, ex-divorciada; tommy é um produtor de televisão cujo relacionamento acabou e que, após a separação, tem um affair com a professora; ben é porteiro de um hotel, ex-marido de maria e que se apaixona por ashley, a amante de griffin. no fundo, é um mosaico de situações e de compromissos, uma teia de emoções como tantas vezes encontramos no dia-a-dia. em alguns aspectos, faz lembrar woody allen (e que filmes sobre relacionamentos em manhattan não o fazem?) e, talvez, a série ultra-famosa sex and the city. foi, aliás, a revista glamour que indicou: "sex and the city with a grittier edge" o que é bom já que estamos a precisar de mais filmes realistas sobre relacionamentos e emoções. de todas as personagens, aquelas que mais me marcaram foi maria, numa excelente interpretação de rosario dawson, frágil, humana e tremendamente urbana e ashley, num registo também ele frágil e realista. no fundo, pessoas que podiam ser qualquer um de nós e não jovens coquettes de hollywood.

ah, e tem também a belíssima heather graham a fazer de annie...



jorge vicente

23.12.08

greener, mark osborne



(imagens de greener)


é no natal e no verão que as grandes produtoras de animação estreiam os seus filmes. pelo menos, nos estados unidos é assim. aqui, em portugal, não sei. um dos filmes com mais sucesso nos últimos tempos (e que estreou no verão) foi kung fu panda, da autoria de mark osborne. confesso que, na altura em que estreou, o filme passou-me completamente despercebido, mas agora, sabendo que o realizador é mark osborne, talvez mude de ideias.

mark osborne é um realizador muito interessante que fez duas das obras mais singulares que já vi em animação nos últimos tempos: more e greener. ambos os filmes estão feitos em claymation e são verdadeiras pérolas.

aqui, o trailer de greener:



um bom natal para todos vós!!!!

jorge vicente

20.12.08

o paciente de cancro, II



(fotografia de cindy sherman, "untitled #153", 1985)


"A determinada altura, contudo, normalmente no final da adolescência, o futuro paciente apaixona-se, arranja um ou dois amigos chegados, consegue um emprego que o satisfaz verdadeiramente ou alcança de outra forma algum grau de felicidade de base exterior ao seu. É incapaz de se atribuir qualquer mérito por essa evolução. Parece pura sorte, mais do que merece, mas por enquanto está tudo bem. Em adulto, continua a caracterizar-se por uma má imagem de si próprio e passividade em relação às suas próprias carências, mas demonstra uma devoção extrema pela outra pessoa, causa ou grupo que se tornou a sua vida.

Mais cedo ou mais tarde - podem ser alguns anos, podem ser décadas - o significado externo desaparece. Os amigos mudam-se, o emprego desaparece ou torna-se menos satisfatório, o cônjuge amado parte ou morre. Estas mudanças acontecem a todos nós e são sempre dolorosas, mas para quem tenha posto todos os ovos no mesmo cesto a perda é incapacitante. Mas normalmente não aparenta sê-lo. Os outros acham que ele está a «reagir muito bem», mas no íntimo existe um vácuo. Todos os velhos sentimentos de indignidade regressam em força e perde-se toda a sensação de significado na vida.

Normalmente a rotina continua. Sendo um dador compulsivo desde a infância, o futuro doente canceroso continua a cumprir os rituais com quem quer que tenha permanecido na sua vida, até se esgotar e exaurir. Ouço repetidamente amigos e familiares dizerem: «Ele era um santo. Porquê ele?». A verdade é que predominam pessoas compulsivamente dignas e generosas nos doentes de cancro porque põem as necessidades dos outros acima das suas. O cancro pode ser designado a doença das boas pessoas. No entanto, são «boas» pelos padrões das outras pessoas. São amantes condicionais. Dão só para receberem amor. Se não forem recompensados pelo que dão, ficam mais vulneráveis à doença que nunca. Geralmente, manifesta-se no espaço de dois anos a partir do momento em que o seu esteio psicológico desaparece." (1)

bernie s. siegel


(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 135, 136.

o paciente de cancro



(quadro de egon schiele, "nach links blickendes kind mit roter kappe", 1909)


"O doente canceroso típico, digamos, um homem, sofreu de falta de proximidade com os pais na infância, a falta do tipo de amor incondicional que lhe poderia ter garantido o seu valor intrínseco e a sua capacidade de vencer os desafios. Ao crescer, tornou-se fortemente extrovertido, não tanto devido a uma atracção inata pelos outros mas pela dependência deles para validação do seu próprio valor. A adolescência foi ainda mais difícil para este futuro doente de cancro do que para os outros adolescentes. A dificuldade em estabelecer amizades mais do que superficiais conduziu a uma solidão excruciante e ao reforço de sentimentos anteriores de imperfeição.

Uma pessoa como essa inclina-se a considerar-se estúpida, desastrada, fraca e inepta em jogos sociais ou desportos, apesar de realizações que muitas vezes aão a inveja de colegas. Ao mesmo tempo pode acalentar uma visão do «eu verdadeiro», supremamente dotado, destinado a beneficiar a raça humana com realizações vagas mas transcendentes. Mas esse eu autêntico está cuidadosamente ocultona convicção de que iria prejudicar a aceitação e o amor (subjectivamente) mínimos que a pessoa recebeu. Pensa: «Se eu agir como realmente me sinto - infantil, brilhante, afectuoso e louco - serei rejeitado.»" (1)

bernie s. siegel

(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 134.

17.12.08

bandits (barry levinson)



(billy bob thornton, numa cena de bandits)


quando era adolescente, tinha uma admiração especial por bruce willis. ok, não me interpretem mal. naquela altura, a ideia que tínhamos de bruce willis é que era um gajo super divertido, ultra cool, cómico, irreverente. o motivo: a excelente personagem que ele interpretava na série modelo e detective (em inglês moonlighting). quando apareceu assalto ao arranha céus, esperava ver na personagem algo de david addison. mas estava redondamente enganado. bruce willis passou a encarar o "durão", aquele gajo forte que derrotava todos os mauzões que lhe aparecessem à frente. claro que apareceram filmes muito bons depois: pulp fiction, o sexto sentido, mas as lembranças antigas ficaram sempre lá.

no filme de barry levinson, bandits, willis volta a ser cool (ou tenta voltar a ser cool), mas os planos saem um pouco gorados. o filme não é o veículo ideal para voltar à forma antiga: a espontaneidade, aquele sorriso ao pé do lábio que diz tudo. e que david addison tinha. talvez billy bob thornton, o parceiro de bruce willis no filme e que com ele interpreta um duo de ladrões de bancos, esteja mais à vontade para provocar sorrisos no público. e está. billy bob thornton é excelente no ladrão hipocondríaco. e prova-nos que é um excelente actor. mas isso não basta num filme que dá pouco a quem o vê.

os actores não são tudo. o realizador também o é. e barry levinson estava um pouco fora de água.

jorge vicente

16.12.08

"miss gee" (w. h. auden)



(quadro de andre lhote, "anne", circa 1923)


"Let me tell you a little story
About Miss Edith Gee;
She lived in Clevedon Terrace
At number 83.

She'd a slight squint in her left eye,
Her lips they were thin and small,
She had narrow sloping shoulders
And she had no bust at all.

She'd a velvet hat with trimmings,
And a dark grey serge costume;
She lived in Clevedon Terrace
In a small bed-sitting room.

She'd a purple mac for wet days,
A green umbrella too to take,
She'd a bicycle with shopping basket
And a harsh back-pedal break.

The Church of Saint Aloysius
Was not so very far;
She did a lot of knitting,
Knitting for the Church Bazaar.

Miss Gee looked up at the starlight
And said, 'Does anyone care
That I live on Clevedon Terrace
On one hundred pounds a year?'

She dreamed a dream one evening
That she was the Queen of France
And the Vicar of Saint Aloysius
Asked Her Majesty to dance.

But a storm blew down the palace,
She was biking through a field of corn,
And a bull with the face of the Vicar
Was charging with lowered horn.

She could feel his hot breath behind her,
He was going to overtake;
And the bicycle went slower and slower
Because of that back-pedal break.

Summer made the trees a picture,
Winter made them a wreck;
She bicycled to the evening service
With her clothes buttoned up to her neck.

She passed by the loving couples,
She turned her head away;
She passed by the loving couples,
And they didn't ask her to stay.

Miss Gee sat in the side-aisle,
She heard the organ play;
And the choir sang so sweetly
At the ending of the day,

Miss Gee knelt down in the side-aisle,
She knelt down on her knees;
'Lead me not into temptation
But make me a good girl, please.'

The days and nights went by her
Like waves round a Cornish wreck;
She bicycled down to the doctor
With her clothes buttoned up to her neck.

She bicycled down to the doctor,
And rang the surgery bell;
'O, doctor, I've a pain inside me,
And I don't feel very well.'

Doctor Thomas looked her over,
And then he looked some more;
Walked over to his wash-basin,
Said,'Why didn't you come before?'

Doctor Thomas sat over his dinner,
Though his wife was waiting to ring,
Rolling his bread into pellets;
Said, 'Cancer's a funny thing.

'Nobody knows what the cause is,
Though some pretend they do;
It's like some hidden assassin
Waiting to strike at you.

'Childless women get it.
And men when they retire;
It's as if there had to be some outlet
For their foiled creative fire.'

His wife she rang for the servent,
Said, 'Dont be so morbid, dear';
He said: 'I saw Miss Gee this evening
And she's a goner, I fear.'

They took Miss Gee to the hospital,
She lay there a total wreck,
Lay in the ward for women
With her bedclothes right up to her neck.

They lay her on the table,
The students began to laugh;
And Mr. Rose the surgeon
He cut Miss Gee in half.

Mr. Rose he turned to his students,
Said, 'Gentlemen if you please,
We seldom see a sarcoma
As far advanced as this.'

They took her off the table,
They wheeled away Miss Gee
Down to another department
Where they study Anatomy.

They hung her from the ceiling
Yes, they hung up Miss Gee;
And a couple of Oxford Groupers
Carefully dissected her knee."

-- W. H. Auden

(retirado do site http://www.cs.rice.edu/~ssiyer/minstrels/poems/1298.html

15.12.08

Convite para apresentação de dois livros de antónio rebordão navarro






antónio rebordão navarro é um dos grandes nomes da literatura portuguesa. apareçam!