6.12.08

cultura masculina e feminina



(fotografia de larry clark, "tulsa, from teenage lust", 1973)


"Em geral, todas as sociedades costumam atribuir a cada um dos sexos um determinado número de características, considerads pela tradição como atributos próprios e naturais de cada sexo, e surge sempre uma reacção violenta quando qualquer indivíduo não se comporta de acordo com o costume. Nas nossas aldeias, por exemplo, a mulher deve transportar cargas à cabeça e o homem aos ombros. Um homem que leve um cântaro de água ou uma canastra de peixe à cabeça é ridicularizado, porque é um afeminiado ou maricas.

Na nossa sociedade, de tradição patriarcal, o homem é o representane do sexo forte. É a ele que compete tomar as decisões graves dentro da família, é ele quem deve proteger, alimentar e orientar o grupo familiar. A estas obrigações inerentes à sua natureza biológica da macho estão associados determinados atributos, como o de usar calças, fumar, ir ao café ou à taberna beber, etc. Ora nós assistimos em nossos dias a ua rápida transformação de costumes, como consequência de influências culturais vindas do exterior; de países onde as respectivas posiçõe dos sexos na sociedade são diferentes.

É interessante verificar-se até que já é frequente encontrarem-se grupos de jovens onde a percentagem de fumadores do sexo feminino é mais eleveada do que a do masculino. Porque, se os rapazes há quarenta anos fumavam para provar que já eram homens, hoje são as raparigas que querem provar, não que são homens, mas que não pertencem ao sexo fraco" (1)

a. jorge dias


(1) DIAS, A. Jorge - Conflitos de cultura. Estudos de Ciências Políticas e Sociais. Lisboa. Vol. 51 (1961), p. 111.

4.12.08

mais uma vez maria quintans

carl gustav jung



(quadro de georg baselitz, "ohne titel", 1994)


"E ao lidar consigo próprio o médico deve manifestar a mesma inexorabilidade, consistência e perseverança que manifesta com os seus doentes. Trabalhar em si próprio com igual concentração não é, na verdade, coisa de pouca monta; pois tem de se impôr toda a atenção e juízo crítico que consegue reunir para mostrar aos doentes os seus percursos equivocados, conclusões falsas e subterfúgios infantis. Ninguém paga ao médico os seus esforços introspectivos; e, além disso, geralmente não estamos suficientemente interessados em nós própris. Mais uma vez, subestimamos tão vulgarmente os aspectos mais profundos da psique humana que consideramos o auto-exame ou a preocupação consigo próprio quase mórbidos. Suspeitamos evidentemente de que albergamos coisas deveras nocivas demasiado reminiscentes de uma enfermaria. O médico tem de dominar essas resistências em si próprio, pois quem pode educar os outros não sendo ele próprio educado? Quem pode esclarecer os seus pares estando às escuras quanto a si próprio, e quem pode purificar sendo ele próprio impuro?... O médico já não pode escapar às suas próprias dificuldades tratando das dificuldades dos outros. Deve lembrar-se de que um homem que sofre de um abcesso purulento não está em condições de executar uma operação cirúrgica" (1)

carl gustav jung



(1) JUNG, Carl Gustav apud SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 94.

3.12.08

vigaristas de bairro, de woody allen



(imagem do filme small time crooks, de woody allen)


vigaristas de bairro (small time crooks) não é um dos melhores filmes de woody allen nem tão-pouco pretende vir a ser. é apenas um filme com piada, segundo as palavras do próprio realizador. neste filme, allen é ray winkler, um vigarista de baixa roda que sonha fazer o golpe perfeito. para isso, contrata vários dos seus amigos, cada um mais incompetente do que o outro e começam a escavar um túnel para roubar o banco. eventualmente, tudo corre mal, mas a sorte de ray muda e... mais não digo para poderem ver o filme.

como disse, não é um dos melhores filmes de woody allen nem é o melhor filme de gangsters falhados da história do cinema. esse prémio poderá estar reservado a i soliti ignoti, de mario monicelli, com marcello mastroianni, totó, claudia cardinali e vittorio gassman. mas é sempre um filme de woody allen e, como tal, de qualidade.

2.12.08

o poder da música



(escultura de jean pierre seurat, "josephine baker", 1992)


"A música abre uma janela espiritual. A primeira vez que trouxe um leitor de cassetes para o bloco operatório, foi considerado perigo de explosão. Mas pusemo-lo a funcionar a pilhas e as enfermeiras e os anestesiologistas sentiram-se tão melhor que, se eu me esquecia da música, pediam-ma. Agora há leitores de cassetes em quase todos os blocos operatórios cirúrgicos de New Haven.

Um estudo recente no Pacific Medical Center do Hospital Presbiteriano em São Francisco demonstrou que a música atenua a ansiedade, a tensão e a dor em crianças e adultos durante o procedimento traumático de cateterimo cardíaco." (1)

bernie s. siegel

(1)SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 81.

haverá uma nesga de céu entre as mãos de quem sofre



(quadro de jean albert mcewen, "hommage au soleil - l'aprés-midi d'un jaune", 1964)


"Não há muito tempo, os blocos operatórios tinham janelas. Era um benefício e uma benção apesar da mosca ocasional que conseguia passar pelas redes e ameaçar a nossa assepsia. Para o insecto aventureiro atraído por um espectáculo tão encantador, um golpe rápido e, já está! A porta para o outro mundo abria-se de par em par. Mas para nós que continuávamos a esforçar-nos, havia a benção do céu, o aplauso e a reprovação da trovoada. Uma consulta Divina estejava nos relâmpagos! E, de noite, nas Urgências, havia a pomba e a longevidade das estrelas para esvaziar o ego de um cirurgião. Não fazia mal nenhum a nenhum doente ter o Céu a espreitar por cima do ombro do médico. Receio bem que, ao entaipar as nossas janelas, tenhamos perdido mais do que a brisa; cortámos uma ligação celestial." (1)

dick selzer


(1) SELZER, Dick apud SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 80.



(quadro de rachel gareau, "comme le soleil téclaire", s/d)

"Trabalhar em divisões sem janelas é viver numa selva onde não se consegue ver o céu. Por não haver céu à vista, não há nenhuma visão grandiosa de Deus. Em vez disso, há os inúmeros espíritos fragmentados que espreitam por trás das folhas e sob os riachos. Um não é pior nem melhor do que o outro. Mesmo assim, um homem tem direito ao templo da sua preferência." (2)

bernie s. siegel

(2) idem

1.12.08

a noite abrir-nos-á



(fotografia de helen levitt, "james agee, new jersey"


5.

responde-me se ouvires os pássaros, ou se do teu interior a voz é de guerra, um silvo constante, o boum das palavras grandes, das palavras santificadas pelo uso, mesmo que o uso seja o apanágio da noite - aquela noite que não pertence a ninguém, é apenas nossa e da paisagem que nos cerca:

uma casa,
a ribanceira entre as casas,
um abrigo onde o pastor se alimenta,
o caminho milenar por entre as águas do rio,

um trovão é apenas isso: uma voz sobre o alentejo,
um rumor que rompe o guadiana e nos sobra de pele
e de versos entre os relâmpagos.

sei que tudo sobra, mas a casa é só minha.

jorge vicente