31.10.08

one hell of a ride over here: multiple maniacs



(divine)

apesar de já ter colocado uma das cenas mais escabrosas (!!!) do filme multiple maniacs no post anterior, ainda não falei dele. nem preciso falar muito porque, com este filme, só a experiência de vê-lo vale por si. não é um filme, digamos, convencional, com um argumento lógico, com representações que enchem o olho (se exceptuarmos divine, brilhante no seu papel de travesti assassina). é, acima de tudo, um filme sujo, amador, experimental, surrealista. os seus defeitos são talvez os defeitos de muitos filmes que apareceram nos anos 60 e 70: querem ser tão explosivos, tão chocantes, tão sujos que exageram um pouco. e este então...

a carreira de john waters depois continuou com muito mais sucesso em pink flamingos, cry baby, cecil b. demented e hairspray, mas este fica como um filme relevante, apesar de tudo. a força de divine e a força da ousadia nas imagens.



(a célebre cena da crucificação de cristo, misturada com sexo e ... - vai muito mais longe do que qualquer deep throat que se preze e torna outros filmes como brincadeiras de crianças)

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durante os anos 60, assistiu-se nos estados unidos a uma autêntica revolução cultural: os direitos civis, a emancipação progressiva da mulher, a tremenda influência dos beatles, a "flower power" e, acima de tudo, a revolução sexual: tudo podia ser experimentado, sentido, vivido. a nível do cinema, o filme que mais sofreu essa influência foi a obra de gerard damiano deep throat (em português garganta funda), que foi o filme que mais aproximou o cinema pornográfico das grandes audiências. foi feito numa altura onde a liberdade era um valor máximo a respeitar, em que as pessoas perguntavam: "se há liberdade neste país, porque é que eu não tenho o direito de ver dirty pictures?, em que se discutia, opinava, em que a pornografia era um fenómeno de moda: o perído chamado porno chic.

com o fenómeno do vídeo, porém, muitos dos realizadores de porno deixaram de acreditar na indústria porque achavam que o vídeo estava a massificar um género que, embora sujo, podia ser altamente criativo. era o chamado amor à arte (ou à carne por detrás da arte, digo eu). essa idade de ouro dos filmes pornográficos está bem representada no filme de paul thomas anderson, boogie nights, que constitui o grito de anjo da era clássica dos filmes para adultos (1). a partir daí, tudo começou a piorar.

no entanto, pode-se perguntar uma coisa: passados mais de trinta anos, o que realmente mudou no cinema para adultos? serão os filmes da era clássica realmente tão inovadores? no que toca a deep throat, acho que não. apesar de ter achado que tinha um argumento mais consistente do que os poucos que vi (pelo menos, os actores tentam representar), a premissa continua a ser a mesma: mostrar, mostrar, mostrar. saber se queria aproximar o cinema para adultos do mainstream é irrelevante: o filme continua a ser pornográfico. e ponto.

foi preciso haver uma virginie despentes, um nagisa oshima, uma catherine breillat para afastar o estigma dos filmes para adultos. mas esses eram diferentes: eram artistas e tinham uma visão diferente de encarar o cinema. ficou-nos, no entanto, de deep throat, a excelente música (uma espécie de mistura entre a banda sonora do shaft e sexo) e a polémica que causou.

se me perguntarem qual dos autores "sujos" que prefiro, respondo: John Waters!!!! Não é pornográfico, mas é um doido do caraças. Ah, e não esquecer a minha querida Rollergirl!!!!

jorge vicente

(1) paul thomas anderson realizou, entre outros filmes, magnolia, com phillip seymour hoffman e tom cruise. boogie nights tem como principais protagonistas Mark Wahlberg, Burt Reynolds e Heather Graham.



(imagem de multiple maniacs, de john waters. the freakiest sex scene in history!!!)

link de minutos iniciais de deep throat aqui

uma experiência de vida: bernie s. siegel, parte 2

(qualquer dia, dizem-me que estou a meter o livro todo aqui, mas não importa. estes escritos têm de ser partilhados).

(dedico este post à Patrícia e a todos os médicos)



(quadro de félix edouard vallotton, "the piano player", 1896)


"Continuava a debater-me entre continuar como cirurgião e desperdiçar a aprendizagem de meia vida para ingressar noutra especialidade. Pensei na psiquiatria, onde podia ajudar as pessoas sem as cortar. Então um dos meus pacientes de cancro, um pianista chamado Mark, ajudou-me a perceber que podia ser feliz sem mudar de profissão. Ao registar melhoras, todos os amigos lhe disseram que devia regressar ao palco, mas ele dizia que sabia que já lá não tinha lugar. Descobrira que se sentia mais feliz a tocar piano apenas em casa. Continuava a fazer o que gostava, mas tinha mudado o contexto para o adaptar às suas necessidades. Percebi que tinha de fazer o mesmo.

Tentei «sair de detrás da secretária» e abrir tanto as portas do meu coração como a do consultório. Agora tenho, literalmente, a secretária encostada à parede para que o doente e eu estejamos na posição de nos encararmos de frente como iguais. Um trabalhador dos telefones, um carpinteiro e um estudante de medicina disseram que o meu consultório está todo mal porque a secretária deixou de estar a meio. Tive de explicar que quero ver o meu paciente sem nenhum obstáculo entre nós, em vez de nos relacionarmos como especialista e fracasso.

Comecei a encorajar os doentes a tratarem-me pelo nome próprio. De início era um bocado assustador ser apenas Bernie e não o Dr. Siegel - conhecer os outros como pessoa e não como um rótulo. Significava que tinha de gostar de mim próprio e merecer respeito pelo que fazia e não pelo que tinha aprendido na faculdade. Mas a mudança valeu bem a pena. É uma forma simples mas eficaz de derrubar a barreira entre médico e paciente.

Mudar a secretária e passar ao tratamento pelo nome próprio eram apenas sintomas de uma mudança maior. Cometi o pecado cardeal do clínico: «envolvi-me» com os meus doentes. Pela primeira vez, comecei entender integralmente o que significa viver com um cancro, conhecendo o medo de que esteja a alastrar enquanto se fala com o médico, se lava a loiça, brinca com os miúdo, dorme ou faz amor. Como é difícil manter-se a integridade como ser humano sabendo isso!

(...)



(quadro de mary cassatt, "bill lying on his mother's lap", circa 1889)


Primeiro comecei a abraçar os doentes, imaginando que precisassem que os tranquilizasse. Mais tarde, dei por mim a dizer «preciso de o abraçar», para poder continuar. E mesmo que estivessem ligados a ventiladores, os doentes esticavam-se para me ajudar com um toque ou um beijo, e a minha culpa, a fadiga e o desespero evaporavam-se. Estavam a salvar-me.

Em face de tanta coragem, desejei vezes sem conta poder fazer qualquer coisa para facilitar a passagem. Comecei a sentir que os métodos para tentar prolongar a vida e curar doenças utilizados na minha profissão, entre os objectivos mais nobres da nossa civilização, eram por vezes mais cruéis que o estado selvagem, onde a doença grave é prontamente aliviada pela morte. Diz-se que ninguém pode conceber verdadeiramente a própria morte, mas tenho a certeza de que alguns o fazem quando têm de pesar o fardo das horas, dias ou meses que faltam. Os idosos perguntam-se muitas vezes porque viveram tanto tempo só para sofrer tanta infelicidade e humilhação adiadas. Acho que devíamos poder fazer mais para ajudar uma pessoa a abandonar-se e acabar facilmente com a vida quando desaparece o valor de cada dia. (Falo de meios naturais de abandono, ao dispor de todos nós quando a morte não é considerada um fracasso.)" (1)

(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pgs. 35-38.

30.10.08

uma experiência de vida: bernie s. siegel



(quadro de pierre bonnard, "nu accroupi au tub", 1914)


(peço desculpa por tantos excertos de bernie siegel, mas adoro este homem. e os textos são motivadores)

"Uma das maiores dificuldades é ter tão pouco tempo para passar com a família. O atleta pode tomar duche e ir para casa a seguir ao jogo mas, para os médicos, o dia de trabalho frequentemente não tem fim. Tive de me habituar à ideia de que estar e casa ao fim-de-semana era um bónus e não algo com que pudesse contar. Para além disso, sofria de culpa em dois sentidos: tirando umas horas de folga sentia-me como se roubasse tempo aos meus doentes, mas os dias de dezasseis horas afiguravam-se como um roubo de tempo à minha mulher e aos meus filhos. Não sabia como reagir à culpa nem como uniformizar a minha vida. Muitas noites sentia-me demasiado cansado para tirar partido da família depois de chegar a casa. Uma vez, estava tão exausto que, ao levar a babysittter a casa, tomei automaticamente o caminho do hospital. Provavelmente terá pensado que a estava a raptar.

Mesmo o tempo que conseguia passar em casa era sempre interrompido. Os miúdos estavam sempre a perguntar: «Estás de serviço esta noite?» Toda a gente se enervava quando eu estava de serviço, na certeza de que o serão em família não duraria muito. Para a maioria das pessoas o toque do telefone é um som amigável. Para nós significava ansiedade e separação.

Uma das provações mais duras de um clínico deve-se ao facto de a morte surgir mais vezes durante a noite do que a qualquer outra hora, algo que agora compreendo. Não se pode deixar de sentir um lampejo de fúria quando um paciente que esteve dias em coma morre às duas da manhã e o médico e a família têm de acordar com a notícia. Pensamos: «Porque é que os mortos não hão-de ter algum respeito pelos vivos?» Poucos de nós mencionamos esta hostilidade. Limitamo-nos a sentir-nos culpados por isso. Depois há o fardo adicional de ter de estar bem-disposto e despero no bloco cirúrgico às sete da manhã, apesar dos problemas familiares e de duas ou três chamadas a meio da noite." (1)

bernie s. siegel



(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 33, 34.


de referir que bernie siegel, depois de tanta frustração e tantas dúvidas em relação à sua profissão, verificou que o problema da maior parte dos clínicos se resumia ao seguinte: lidavam com casos, gráficos, doenças, remédios, etc. e não com pessoas. vários anos depois de ter proposto um novo modelo de assistência, o seu exemplo e a sua experiência são uma inspiração para muitos.

aqui um vídeo com bernie siegel:

29.10.08

o sucesso de um médico?



(quadro de andré derain, "buste de femme au châle", 1925)


"No início dos anos 70, após mais de uma década de exercício de cirurgia, achava o meu trabalho muito doloroso. Não era um caso típico de esgotamento; conseguia lidar com os problemas infindáveis, a intensidade do trabalho e as decisões constantes de vida ou de morte. Mas tinha sido treinado para pensar que toda a minha tarefa era fazer coisas de uma forma mecânica às pessoas para que elas melhorassem, para lhes salvar a vida. É assim que é definido o sucesso de um médico." (1)

bernie s. siegel



(1) SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 31.

28.10.08

fyodor dostoyevsky



(quadro de gustave moreau, "le poète et la siréne", 1892-1893)


"Uma nova filosofia, uma forma de vida, não é dada a troco de nada. Custa caro e só é adquirida com muita paciência e grande esforço." (1)

fyodor dostoyevsky



(1) DOSTOYEVSKY, Fyodor apud SIEGEL, Bernie S. - Amor, medicina e milagres. 1ª ed. Lisboa: Sinais de Fogo, 2004. ISBN 972-8541-47-3. pg. 31.

27.10.08

"happiness is only real when shared" (christopher mccandless)



(hal holbrook e emile hirsch, into the wild (2007) de sean penn)


a felicidade só é real quando é partilhada. foi essa dura verdade que christopher mccandless só aprendeu quando estava às portas da morte, devorado por essa força tão dura quanto bela e majestosa que é a vida selvagem. "The wild that cannot be beated by any man who dares to confronts it".

foi esta dura lição que christopher aprendeu mas, apesar de todo o pretenso egoísmo que possa ter tido, provavelmente nasceu para isso, para nos mostrar que o verdadeiro caminho não se faz na fuga, mas sim no encontro, na partilha e no caminhar. a imprudência e um certo egoísmo são importantes para nos revelarmos e crescermos. para descobrirmos e vivermos a verdadeira Vida.

e que desejo tenho de conhecer uma verdadeira comunidade hippie...



(brian dierker e catherine keener, em into the wild (2007))

e, agora, o trailer:



e uma música que não aparece no filme, mas que simboliza muito para mim:



jorge vicente