nova iorque. início dos anos 80. a era dos yuppies e das festas da alta burguesia. a era onde os ideais defendidos pelos hippies já eram apenas memória. é neste ambiente que whit stillman escreveu aquele que é um dos mais importantes filmes independentes norte-americanos dos anos 90: metropolitan. sem o apelo ousado e avant-garde de richard linklater e a maluqueira inteligente de kevin smith, fica-nos um retrato social fresco, mas terno de uma juventude em constante declínio. ou pelo menos, uma juventude que se acha ela própria em declínio.
bastante parecido com o estilo de woody allen (basta vermos os créditos iniciais para notarmos a semelhança), este filme é bastante interessante, embora não o ponha nos píncaros, como muitos críticos o fazem. é uma obra importante, mas o mesmo poderia dizer de dezenas de filmes da era de ouro do cinema alternativo norte-americano.
fica-nos, para memória futura, a beleza pura e terna de carolyn farina (no papel de audrey rouget, eterna apaixonada da escritora jane austen), o radicalismo desapaixonado de edward clements (no papel de tom townsend, admirador do socialista fouret), o snobismo triste de chris eigeman (que esconde um aspecto trágico saliente) e o intelectualismo de bryan leder (no papel de fred neff). talvez o problema em relação ao filme, que me impede de o amar, seja o mesmo problema que eu tenho em relação a jane austen: demasiada relevância na crítica da alta sociedade, com os seus problemas, as suas pequenas birrinhas, as suas grandes comédias e pouco realce aos grandes fantasmas que existem dentro do homem. o antídoto para jane austen, ou talvez, um companheiro ideal para essa grande escritora seria o trágico thomas hardy, onde o drama humano e a tragédia atingem o coração de todos os homens.
(estátua de aurora canero, "navegando juntos viii", 2005)
"blow me a kiss from across the room say I look nice when I'm not touch my hair as you pass my chair little things mean a lot
give me your arm as we cross the street call me at six on the dot a line a day when you're far away little things mean a lot
don't have to buy me diamonds and pearls champagne, sables or such i never cared much for diamonds and pearls 'cause honestly, honey, they just cost money
give me your hand when I've lost my way give me your shoulder to cry on whether the day is bright or gray give me your heart to rely on
send me the warmth of a secret smile to show me you haven't forgot for always and ever, now and forever little things mean a lot
give me your hand when I've lost my way give me your shoulder to cry on whether the day is bright or gray give me your heart to rely on
send me the warmth of a secret smile to show me you haven't forgot that always and ever, now and forever little things mean a lot" (1)
kitty kallen
(1) retirado do cd de kitty kallen, the kitty kallen story, 1992)
kitty kallen foi uma das vozes mais populares da rádio nos estados unidos, tendo atingido o seu auge em 1954, quando cantou "little things mean a lot", da autoria de carl stuz e edith lindeman. porém, a sua carreira começou muito antes, antes da 2ª guerra mundial, quando cantou nas big bands de jan savitt (1936), artie shaw (1938) e jack teagarden (1940). foi, porém, nas bandas de jimmy dorsey e harry james que ficou famosa.
depois dos anos 40, teve, infelizmente, um grave problema de saúde que fez com que perdesse a sua voz. quando regressou, em 1954, cantou "little things mean a lot", a sua canção mais célebre e o justo merecimento pela sua carreira. depois deste êxito, ainda gravou mais alguns discos, mas sem o sucesso que merecia.
para quem pensa que o cinema feito em portugal é um cinema demasiado intelectualizado e teatral, recomendo vivamente the lovebirds, o último filme de bruno de almeida. sem recorrer ao habitual (mas perigoso) mundo do subsídio, bruno de almeida realiza uma obra que transpira amor e suor em todos os seus poros. a maior parte dos seus colaboradores habituais estão lá: michael imperioli, drena de niro, john ventimiglia, mas também ana padrão, rogério samora, fernando lopes (numa actuação memorável), etc. o drama da cidade de lisboa visto pelos olhos dos lisboetas e dos estrangeiros que cá vivem. a visão de um português que vive no estrangeiro ou de um estrangeiro que, por acaso das circunstâncias, nasceu em portugal.
e isso é patente nesta obra. tão portuguesa mas, ao mesmo tempo, tão estrangeira. os planos escolhidos, as falas, as expressões, o modo como as cenas se cruzam revelam um realizador que aprendeu dos dois lados, que morou lá fora e que trouxe para o cinema português o melhor que a américa, cinematograficamente, nos oferece.
um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos. certamente.
ils, da autoria de david moreau e xavier palud, é um exercício de tensão e suspense fantástico, talvez o melhor filme de suspense/terror francês que vi até hoje. claro, podem dizer vocês: o cinema francês nunca teve tradição de cinema fantástico, ao contrário do cinema norte-americano, espanhol e italiano. isso é verdade, mas tal não implica que os franceses não possam ser eficazes e altamente profissionais quando realizam filmes diferentes do seu estilo habitual.
a história deste filme é bastante simples: um jovem casal parte para a roménia em busca do idílio não encontrado nas grandes cidades. ela, jovem professora numa escola secundária em bucareste; ele, escritor em busca de palavras. ambos vivem numa mansão afastada do centro de bucareste, num pinhal, o ideal para ambos escreverem e se amarem. até que... começam a ser atacados por estranhos.
um filme bastante bom, com algumas cenas a fazer lembras straw dogs de sam peckinpah, mas sem a carga violenta e viril do realizador norte-americano. a ver.
jorge vicente
(trailer de ils). é incrível como os norte-americanos conseguem fazer um trailer tão hollywoodesco para um filme como ils...
este trabalho de steve roach, dreamtime return, é o resultado das inúmeras viagens feitas pelo compositor ao longo de três anos, algumas das quais ao norte da austrália. é um trabalho muito interessante, onde a temática do sonho está presente, sonho esse gravado na pedra pelas tribos aborígenes do grande continente australiano.
david stahl, fotógrafo e colaborador de roach neste álbum, diz o seguinte acerca do período antigo, altura em que os aborígenes foram trazidos do céu para a austrália:
(estátua de declan apuatimi, "purukuparli", 1980)
"this was «dreamtime», an idyllic time when australia was an eden filled with gentle animals, plentiful food supplies, and sweet water. here early man flourished and became the intellectual aristocrat of the prehistoric world." (1)
espero que sigam as coordenadas oferecidas por steve roach neste disco. e ofereçam-se ao sonho.
jorge vicente
aqui, a composição "australia dawn - the quiet earth cries inside" de steve roach. apesar de não estar embedded, vale a pena.
(1) retirado do booklet do CD dreamtime return, de steve roach.
no dia 26 de Abril, vou lançar o meu primeiro livro, Ascensão do Fogo, pela chancela da edium editores. claro que estão todos convidados. todos, sem excepção: os poetas, os biodançantes, os amigos, a família, todos aqueles que regularmente (ou não) fazem comentários no meu blog, aqueles que me lêem, aqueles que me tocam e se sentem invadidos na sua alma pela poesia. todos, sem excepção.
mais tarde, enviarei os dados da hora e do local. vai ser uma grande festa e espero que sejamos muito a aplaudir, a escutar, a sentir e a dançar cá dentro. porque a poesia é uma dança do interior.