7.2.08

Philip Pullman, excerto de A Torre dos Anjos



(fotografia de Arthur Tress, "Boy in TV Set, Boston, MA", 1972)

"Will apercebeu-se, pela primeira vez, aos sete anos, de que a mãe era diferente das outras pessoas e que ele tinha de tomar conta dela. Estavam os dois no supermercado e faziam um jogo: só podiam colocar um objecto dentro do carrinho quando não estivesse ninguém a olhar. Era função de Will olhar em volta e murmurar um «agora» e ela tirava uma lata ou um pacote da prateleira e colocava-o silenciosamente dentro do carrinho. Quando as coisas estivessem todas dentro do carrinho, eles estariam a salvo porque se tornavam invisíveis.

Era um jogo divertido e demorou muito tempo porque era sábado de manhã e a loja estava cheia de clientes, mas eles eram bons naquilo e trabalhavam em equipa. Will gostava muito da mãe e dizia-lho com frequência, tal como ela.

Quando chegaram à caixa, Will sentia-se excitado e feliz porque o jogo estava quase a chegar ao fim e eles estavam prestes a vencer. Quando a mãe não conseguiu descobrir o porta-moedas, isso também fazia parte do jogo, mesmo quando ela disse que o inimigo devia tê-la roubado; mas Will estava a ficar cansado do jogo e com fome e a Mãe já não parecia tão feliz; ela estava mesmo assustada; tiveram de voltar para trás e colocar todas as coisas de volta nas prateleiras, só que desta vez tinham de ser supercuidadosos porque os inimigos estavam a persegui-los através do número do cartão de crédito, que agora sabiam qual era porque lhe tinham roubado o porta-moedas...

Will sentia-se cada vez mais assustado. Percebeu como a sua mãe fora inteligente ao transformar o perigo concreto num jogo para que ele não se sentisse aterrorizado e como, agora que sabia da verdade, tinha de fingir não estar assustado, para a tranquilizar.

E assim o rapazinho fingiu que ainda estavam a brincar, para que a mãe não tivesse de se preocupar com ele, e foram para casa sem as compras, mas a salvo dos inimigos; foi então que Will descobriu o porta-moedas sobre a mesa do corredor. Na segunda-feira foram ao banco, fecharam a conta e abriram outra numa dependência diferente, por precaução. E assim o perigo passou.

Mas, nos meses seguintes, Will apercebeu-se, a pouco e pouco e contravontade, de que os inimigos da mãe não estavam algures no mundo, mas na cabeça dela." (1)

Philip Pullman

(1) PULLMAN, Philip - A torre dos anjos. 4ª ed. Barcarena: Presença, 2007. ISBN 978-972-23-3058-9. p. 15, 16.

Muito interessante este excerto, retirado do 2º volume do livro fantástico His Dark Materials, de Philip Pullman. O episódio do supermercado fez-me lembrar um texto de Italo Calvino, retirado de Marcovaldo (penso) no qual a família do protagonista (Marcovaldo) se divertia a retirar produtos da prateleira, metê-los no carrinho, passear um pouco com eles e, após algumas peripécias, voltar a colocá-los no mesmo sítio. Em qualquer dos excertos, uma excelente crítica ao nosso modo de vida.

Jorge Vicente

Project BW (Martin Arnaldo)



(imagem de project bw)

pode ser um filme pequenino, mas promete muito. só é pena que martin arnaldo não tenha realizado muitos mais filmes pois tinha imenso para dar. decidiu apostar em spots publicitários e vídeos musicais.

seja como for, project bw fica, apesar de parecer um teste para algo maior. terá sido renaissance de christian volckman?

jorge vicente



o site de martin arnaldo aqui.

6.2.08

The Host (Joon-Ho Bong)



(imagem de The Host)

Quando fui ao clube de vídeo para alugar The Host, avisaram-me: o filme não é grande coisa, os efeitos especiais são bastante bons, mas a história é inexistente. Torci um pouco o nariz porque sabia que o filme era sul-coreano e tinha recebido óptimas críticas, embora, muitas vezes, as críticas sejam enganadoras. Pensei cá pelos meus botões: se calhar, o filme não é daquelas americanices, onde os bons têm punhos de ferro e aparece sempre uma actriz vistosa a ajudar o herói a derrotar a besta. Provavelmente, preferem uma história bem conseguida, sem buracos, com os argumentos medidos a esquadro e compasso, onde se dá um início, se desenvolve uma história e se processa um fim. Linear e sem ponta de humanidade.

Quando vi o filme, verifiquei que a maior parte das pessoas estava enganada. Os efeitos especiais são, afinal, a pior coisa do filme. A tal besta é estranha e não tem o tom ameaçador do Alien e do tubarão de Spielberg. No entanto, as pessoas são de carne e osso. Numa das cenas mais fortes do filme, vêm-se os vivos chorarem os mortos, com coroas de flores espalhadas num recinto improvisado. Penso que num filme norte-americano, isso não apareceria. Quem sobrevive, apenas mostra as lágrimas do cinema, típicas de blockbuster, estilo lágrimas típicas de super-herói.

E sempre podemos ver as dimensões sociais, políticas e, acima de tudo, ambientalistas do filme. O último ataque ao animal, através do agente laranja, sem mencionar também o pseudo-vírus que os americanos inventaram, revela muito do tom desta obra: crítica, crítica, crítica. Provavelmente, a fazer lembrar as implicações sociais da Noite dos Mortos Vivos, tanto na sua variante George Romero ou Tom Savini: we are them and they are us.

Jorge Vicente

uma bela descrição do filme aqui



(trailer de The Host)

The Queen (Stephen Frears)



(Helen Mirren, interpretando Elizabeth II em The Queen).

A Rainha (The Queen) não será, com certeza, o melhor filme de Stephen Frears, mas a interpretação de Helen Mirren é luminosa. Por tudo aquilo que ela faz e, acima de tudo, esconde. É uma interpretação recatada, pouco emotiva, como se os sentimentos demorassem um pouco, como se eles apenas existissem no interior do palácio e, mesmo assim, no recanto mais íntimo de uma escrivaninha. A alma demora a surgir e, quando se mostra, é sob o véu encoberto de uma timidiz monárquica.

Muito longe da força de Elizabeth I, uma verdadeira mulher-coragem.

Jorge Vicente



(imagem de The Queen)

4.2.08

Maaz (Christian Volckman)



(imagem de Maaz, de Christian Volckman)



(imagem de Renaissance, de Christian Volckman)

Christian Volckman é um dos realizadores de animação mais surpreendentes da actualidade. Ficou conhecido pela obra Renaissance, de 2006, realizada através da técnica motion capture, que consiste na gravação de movimentos de actores reais que, depois, serão utilizados para a animação de modelos digitais em 3D (mais informações aqui).

A curta-metragem Maaz, que vi ontem, foi uma das suas rampas de lançamento. O filme, nitidamente surrealista é, segundo alguns críticos, uma tentativa de adaptação ao estilo de motion capture, resultando num exercício de estilo bastante interessante e belo.

Quanto a Renaissance, poucas palavras também haverá a dizer. Um dos melhores de animação dos últimos anos. Daniel Craig está irreconhecível.

Jorge Vicente

forum de Maaz no imdb aqui.

Maaz no imdb aqui.
Renaissance no imdb aqui.
O site de Renaissance aqui.



(Maaz: filme completo)



(excerto de Renaissance)

1.2.08

a vida contemplativa, segundo Allan Kardec



(fotografia de Arthur Tress, "A Priest at St. John the Divine Seems to Be Flying, New York, NY", 1974)


"657.

Aqueles que se consagram à vida contemplativa terão algum mérito perante Deus, uma vez que não fazem nenhum mal e só pensam n'Ele?

«Não, porque, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense n'Ele, mas não quer que só se pense n'Ele, pois impôs deveres a cumprir na Terra. Quem passa o tempo todo na meditação e na contemplação nada faz de louvável aos olhos de Deus, porque vive uma vida pessoal e inútil à humanidade. Deus pedir-lhe-à contas do bem que não tiver feito»" (1)

Allan Kardec



(1) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos. 2ªed. Mem Martins: Livros de Vida, 2005. ISBN 972-760-108-1. p. 269.

The Go-Between (L.P.Hartley)




No final do dia de hoje, tive a sensação de que nada existente no universo da Literatura interessa de facto, a não ser o próprio acto da criação literária e o acto de nos darmos aos outros, de modo gratuito e sem condições, seja através da humanidade de alguns autores seja através das suas personagens, que se nos atravessam na alma e que representam o mundo (o nosso mundo). Falo disto porque José Luís Peixoto ganhou o Prémio Daniel Faria 2008 e acho um pouco estranho já que o Prémio se destina a autores não consagrados. Mas, enfim, isso não interessa quando temos autores como L.P. Hartley a nos apontarem o céu.

O único livro que li dele foi The Go-Between, que acabei hoje. Já o tinha lido na adolescência, na cadeira de Inglês, mas, na altura, não gostei tanto como agora. Talvez a visão da casa onde Leo Colston passou o Verão de 1900 fosse submergida pela paisagem do Nebraska presente em My Ántonia, de Willa Cather, que me maravilhou e assombrou durante anos. E que me continua a inspirar frequentemente. Hoje, aos 33 anos, porém, conheci melhor e compreendi as emoções fortes e quase dionísiacas das personagens de L.P. Hartley, especialmente Ted Burgess, uma força da natureza, embora trágica e muito frágil, ao mesmo tempo.

Um livro a ler (e a amar).

Jorge Vicente