28.11.07

Os demónios (Allan Kardec)



(fotografia de Anne Brigman, "The Lone Pine", 1908)

"A ideia de demónio não implica a ideia de espírito mau, senão na sua acepção moderna, porque o termo grego daimôn, donde ela resultou, significa génio ou inteligência e aplica-se indistintamente aos seres incorpóreos, sejam eles bons ou maus.

Por demónios, segundo a acepção vulgar da palavra, entendem-se seres essencialmente malfazejos. Como todas as coisas, seriam criações de Deus; sendo Ele soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres destinados, pela sua natureza, ao mal e condenados por toda a eternidade. Se não fossem obra de Deus, existiriam, como Ele, desde toda a eternidade; ou então, existiriam muitas potências soberanas.

A primeira condição de toda a doutrina é ser lógica. Ora, à dos demónios, no sentido absoluto, falta esta base essencial. Concebe-se que povos atrasados, os quais, por desconhecerem os atributos de Deus, admitem nas suas crenças divindades maléficas, também admitam demónios. Mas, é ilógico e contraditório de quem faz da bondade um dos atributos essenciais de Deus possa supor que ele tenha criado seres destinados ao mal e a praticá-lo eternamente, porque isso equivale a negar-lhe a bondade. Os partidários dos demónios apoiam-se nas palavras de Cristo; não seremos nós a contestar a autoridade dos seus ensinamentos, que desejaríamos ver mais no coração do que na boca dos homens. Mas, estarão esses partidários certos do sentido que ele dava a essa palavra? Não é sabido que a forma alegórica constitui um dos caracteres distintivos da sua linguagem? Dever-se-à tomar à letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos de outra prova, além da que nos fornece esta passagem:

«Logo após esses dias de aflição, o sol escurecerá e a lua não mais dará sua luz; as estrelas cairão do céu e as potências do céu serão abaladas. Em verdade vos digo que esta geração não passará, que todas estas coisas se tenham cumprido»

Não temos visto a ciência contradizer a forma do texto bíblico, no que se refere à criação e ao movimento da terra? Não se dará o mesmo com algumas figuras de que Cristo se serviu, na medida em que tinha de falar de acordo com os tempos em que viveu e com os lugares por onde passou? Não é possível que tenha dito conscientemente uma falsidade; se, no entanto, nas Suas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é porque não as compreendemos bem ou porque as interpretamos mal.

Os homens fizeram com os demónios o que fizeram com os anjos; como acreditaram na existência de seres perfeitos desde toda a eternidade, tomaram os Espíritos inferiores por seres eternamente maus. Devem entender-se por demónios os seres impuros que, muitas vezes, não valem mais do que as entidades designadas por este nome, mas com a diferença do estado deles ser transitório. São Espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provações porque têm de passare que, por isso mesmo, levam mais tempo a sofrê-las. Contudo, conseguem sair desse estado quando o quiserem. Deste modo, poderíamos aceitar a palavra demónio com esta restrição. Mas, como a entendemos actualmente num sentido exclusivo, poderá induzir em erro, fazendo crer na existência de seres especiais criados para o mal.

Satanás é, evidentemente, a personificação do mal sob forma alegórica, visto não se poder admitir que exista um ser mau destinado a lutar, de poder a poder, com a Divindade, tendo por única preocupação contrariar-lhe os desígnios. Como precisa de figuras e imagens que lhe impressionem a imginação, o homem pintou os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos que lembram as qualidades ou os defeitos humanos. É assim que os antigos, ao quererem personficar o tempo, pintaram-no com a figura de um velho munido de uma foice e de uma ampulheta. Representá-lo com a figura de um mancebo seria um conta-senso. O mesmo se verifica com as alegorias da fortuna ou da verdade, entre outras. Os modernos representaram os anjos, ou puros Espíritos, com uma figura radiosa, de asas brancas, emblema da pureza. Satanás, aparece com chifres, com garras e com os atributos da animalidade, emblema das paixões vis. O povo, que toma as coisas à letra, viu nesses emblemas individuades reais, como vira outrora Saturno na alegoria do Tempo." (1)






(1) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos. 2ªed. Mem Martins: Livros de Vida, 2005. ISBN 972-760-108-1. p. 95, 96.

27.11.07

Organ Eye (Organ Eye)



(imagem dos Organ Eye, retirada daqui)

Em Junho ou Julho de 2007, descobri a arte da David Maranha, através de um concerto que ele deu na Zé dos Bois. O concerto foi muito interessante e aproveitei logo para comprar um CD, tendo sido escolhida a obra Marches of the New World, já referida neste blog (aqui). Gostei bastante e aproveitei, mais tarde, para comprar via net um outro disco, intitulado Organ Eye, que é também o nome do grupo no qual Maranha estava inserido.

De acordo com a informação veiculada no myspace da banda, os Organ Eye são um projecto conjunto de dois membros do colectivo Osso Exótico (David Maranha e Patricia Machás) e dos Minit (Jasmine Guffond e Torben Tilly). A editora é a Staubgold, editora alternativa alemã especializada em free jazz, música electrónica e experimental. O disco é de 2007.

Atente-se ao que diz Pedro Gomes:

"A cumulative effort in several senses, Organ Eye assembles some of Maranha's and Machás's work in Osso Exótico exploring hypnotic, repetitive & ritualistic properties found in the use of several acoustic and electrical devices. Minit's previous output, as can be observed in their 2003 Staubgold release Now Right Here, is a mind-expanding/soul-mellowing exercise of drone music, processed and designed via digital media. The intersection and addition to this sum, is the fully-formed patchwork of eternal sound vibration they manage to generate in unison, taking from the seminal teachings of the Young/Conrad/Riley axis, and deconstructing the spiritual trip as to be able to reposess it and make it their own. Throughout the record's two tracks (both over the 20 minute mark), circular fuzzed out Hammond riffs keep realigning the same fragments as they change throughout the jams, while delicate violin sweeps draw up the soundspace. Digital treatment, processed acoustic sources & a number of precise sonic particles are constantly thrown onto the ululating harmonic lines, until they unlock the grooves, and revelation times occurs. Organ Eye is drone music in modern forms as spiritual alignment in crescendo, like constellations drawing themselves up, finding an opening for the infinite, blasting away, seeing it manifest itself and being a part of it, then walking away from it, simultaneously observing and generating its disintegration. At the end of the day it's beautiful irony that some truly cosmic experience and a secular ritual can be reinvented and still manifest itself with clarity while undergoing scalpelization. The rest is just down to taking it into the outer regions and sharing the trip once again, to reenter the holy channels of ineffable feeling, to forget and relearn, forever"
(crítica de Pedro Gomes, retirada do myspace da banda - aqui).

O myspace dos Organ Eye aqui.

O myspace dos Minit aqui.

O myspace de David Maranhe e dos Osso Exótico aqui.

Jorge Vicente

Maria do Rosário Pedreira



(fotografia de Bill Brandt, "Coal Searcher Returning Home", 1936)

"antes de um lugar há o seu nome. e ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável. lembro-me
do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.
íamos ou vínhamos" (1)

Maria do Rosário Pedreira





(1) PEDREIRA, Maria do Rosário - A casa e o cheiro dos livros. Lisboa: Quetzal, 1996. p. 27.

26.11.07

Concertos que eu fui: Irmãos Catita



(fotografia dos Irmãos Catita)

No dia do concerto dos Irmãos Catita, em 14 de Julho de 2007, muitas actividades interessantes estavam a acontecer por toda a cidade de Lisboa. Para quem ainda não percebeu, esta cidade vibra por dentro, todas as suas artérias têm uma vida imensa que passa despercebida ao mais desatento dos cidadãos. É o Onda Jazz que, todos os fins de semana, alberga músicos interessantes de todos os quadrantes musicais; é o Sítio do Cefalópode, que, infelizmente fechou as portas em Outubro, também um local bastante apeteceível em termos de jazz e de outras músicas. E temos, também, a Galeria Zé dos Bois, com os seus concertos alternativos que acontecem todas as semanas, o Lounge Bar, o Music Box e tantos outros.

Ora bem, nesse dia, 14 de Julho de 2007, decidi ir mais o Vasco ver os Irmãos Catita. Mas, antes, por volta das 17.00 (ou terão sido 16.00?), ainda fomos ao Lisboa Zen. O Lisboa Zen era uma feira alternativa localizada no Jardim Botânico Tropical, aquele junto ao Palácio de Belém. Por volta dessa hora, lá estavamos nós, desejosos de experimentar o que a feira tinha para oferecer. Não era um recinto muito grande, na minha opinião, era pequeno de mais se comparado com um que eu tinha ido meses antes, numa outra feira, praticar biodanza. Mas estavam lá as já tradicionais leituras da aura, o Brahma Kumaris, os livrinhos que normalmente se vendem nestas feiras, etc, etc.

Quando saímos, já era tarde e tínhamos de jantar para podermos ir ver os mui queridos Irmãos Catita, no Cabaret Maxime, por volta das 22.00. Escolhemos um restaurante qualquer na zona de Belém, comemos o nosso pratinho e decidimos partir. Como ainda era cedo, fomos a pé. A sério: a pé de Belém até ao Maxime, passeando pela Junqueira, pela zona do Hospital Egas Moniz, subindo de Alcântara até ao Museu Nacional de Arte Antiga até à velha Calçada do Combro. Foi um estafanço, demorámos mais de uma hora, mas chegámos ao local desejado, às portas do antro de perdição mais interessante da cidade de Lisboa, porque tremendamente kitsch, tremendamente popular, português e, ao mesmo tempo, avant-garde. Afinal de contas, que outra zona de Lisboa alia sabonetes afrodisíacos dos anos 50 com capas de discos de vinil dos Beatles? Só a mente retorcida de Manuel João Vieira, que está estampada no Maxime em todos os cantos.

Ainda esperámos um bom bocado para ver o concerto, bebemos uns sumos e metemos conversa com o porteiro, para saber onde comprar alguns daqueles produtos kitsch que estavam nas montras. Afinal de contas, por detrás de produtos kitsch, existe um verdadeiro arsenal de preciosidades antigas, desde fotografias eróticas a livros do Patinhas, passando por discos em vinil dos Shalamar e outros êxitos disco.

Depois de alguns sumos, o concerto lá começou com o seu som retro e muito engraçado. Não vou estar a aqui a discutir as letras porque o meu blog é muito bem intencionado, mas vale a pena saber que ainda existe alguém neste país a fazer canções subversivas, bem tocadas, bem interpretadas, com um naipe de músicos espectaculdares e que sabem bem o que fazem. Se são os Irmãos Catita ou os Corações de Atum ou mesmo os Ena Pá 2000, pouco interessa. Fazem parte da minha cultura musical portuguesa e da de muitos outros que cresceram no final dos anos 80 e princípios de 90.



(o fado "Fado Barnabé" dos Irmãos Catita)

O site dos Irmãos Catita aqui


Jorge Vicente

Concertos que eu fui: Norah Jones



(fotografia de Norah Jones)

Tudo aconteceu em 22 de Julho de 2007, nos Jardins do Casino Estoril. Norah Jones estava em Portugal, integrada no festival CoolJazzFest. Cheguei um pouco antes da hora marcada, por volta das 20.30 e sentei-me nuns bancos que foram montados na parte superior do jardim, mais para ao pé do Casino. O palco estava lá longe e não se conseguia notar a real dimensão das emoções que se espraiavam no palco.

Conhecia a obra de Norah Jones apenas pelos discos. Tinha gravado Come Away With Me dois anos antes, mas já conhecia, menos bem, evidentemente, os seus outros discos. Gostava muito do disco, apesar de achar de achar que "Don't Know Why" já perdera (um pouco) a sua intensidade devido a passar milhentas vezes na rádio. Sempre me fez confusão isso: porque razão Norah Jones tinha tanto sucesso? Na altura, achei estranho que pudesse estar a vender milhões de discos, conjuntamente com os Limp Bizkit, Linkin Park ou Britney Spears. Não era tão jazz como Diana Krall nem tão comercial como outras cantoras da sua idade, mas o sucesso de "Don't Know Why" catapultou-a para a fama. Penso que foi merecido, embora ache que ao lado de Norah Jones, deviam estar Gillian Welch, Fiona Apple, Rickie Lee Jones e outras cantoras que cantaram de modo muito próprio a alma americana. Foi um pouco de sorte, sorte imaculada.

Na minha opinião, Norah Jones nunca foi uma verdadeira jazz singer. Tinha tanto de jazz como tinha de folk/country ou pop e a prova disso foi o concerto que eu fui ver. A primeira parte foi preenchida pelo maravilhoso M.Ward, um indie rocker com especial apreço pela tradição folk e country norte-americana. Norah Jones cantou com ele na primeira parte e todos ficámos boquiabertos (eu fiquei). Ela fez a primeira parte com ele, cantou com ele aquelas canções que irradiavam gospel por todos os lados e depois ainda tem a lata de ir cantar as canções dela, com um intervalo de vinte minutos, para nós nos recompormos? Foi muito bonito e acho que foi o momento alto da noite. Pelo menos, ficou-me na memória, muito mais do que as canções que ela canta ao piano. Acho que ela devia tocar mais guitarra. E devia apostar em cantar mais com M.Ward. E com Gillian Welch, se puder ser. A versão que ela (e M.Ward) fizeram de "My First Lover" foi espectacular.



(vídeo do concerto de Norah Jones em Nîmes, interpretando "My First Lover" de Gillian Welch, com M.Ward)



(vídeo de M.Ward, "Chinese Translation")

a biografia de Norah Jones aqui
o site de Norah Jones aqui
o myspace de Norah Jones aqui

a biografia de M.Ward aqui
o site de M.Ward aqui
o myspace de M.Ward aqui

Jorge Vicente

25.11.07

"In Your Mind" (Rich Kids on LSD)



(fotografia de Walker Evans, "West Virginia Living Room", 1935)

"One, Two, One, Two, Three, Four!
Well, I'm so tired of your whining,
Yes, I've said this all before,
If you didn't hear the first time here's your chance you get one more.
So listen close to what I say,
It'll change the way you live.
For the second time it's simple - Think Positive!
Take a situation that someone says stinks,
And make it good, it's probably just a shitty way he thinks.
So pack a bowl sit back, relax, and listen real close.
And afterwards we'll raise some hell, get drunk, and drop a dose.
You keep on trying and one day you'll find out what it means, means.
If life's what you make it, make it good,
It's never as bad as it seems, seems.
We're all stuck here together in this twisted misery.
Is life a game a lesson or just one big mighty score,
If so, who's the boss?
Where's the teacher?
What's the score?
Why am I here, what is my job,
What purpose do I serve,
Is there an answer to these questions or a lesson to be learned?
When I die where do I go,
The final act or premiere show,
Is someone there to take my hand and lead the way?
Or am I on my own and now full grown,
Being that my mind is blown.
Supposed to use the answers that I found along the way.
You thought you knew it all but still the answers you couldn't find, find
Until you realize life's what you make it and it's all in your mind, mind
You broke the chains which held you down so long
Now your free!
Well, waited so long for this day to be free,
Breaking the chains that we're binding me.
Don't look so hard, it's easy to find,
Life's what you make it, it's all in Your Mind.
You can't fight depression, it's not a disease.
If you say your life sucks then it will suck indeed.
Be happy or sad or whatever you chose,
And I know I can win I'm not destined to lose.

Never quit or give up even if you've had enough
You're not a loser despite what you believe
Try your hardest, do your best,
Life's not hard, but it's a test to see who's blind and naive.
Never done, you'r on the run, relax and have a little fun.
Let's race and see who falls behind.
It's in my mind!" (1)

RICH KIDS ON LSD



(1) retirado do CD dos Rich Kids on LSD, Riches to Rags, 1995.

Os Rich Kids on LSD são uma banda bastante interessante de hardocore punk. Oriundos da California, são já bastante antigos, tendo-se formado em 1981 em Montecito. O seu género musical foi bastante influenciado pelo "Nardcore", um subgénero do punk praticado pelos grupos do Sul da California. O nome de "Nardcore" foi dado porque muitas das bandas oriundas da área tocavam em Oxnard, cidade situada 60 milhas a oeste de Los Angeles. Para além dos RKL, podem-se mencionar também os A.F.U., Dr. Know, Habeas Corpus, Aggression, entre outras.

Voltando aos RKL, eles, depois, misturaram o som tipicamente hardcore com um pouco de rock, causando sensação nos palcos europeus e no meio sempre alternativo dos skaters. O álbum que eu ouvi, Riches to Rags, é de 1995 e saiu numa altura em que a banda já não tinha a mesma importância que tivera antes. Mas, continua a ser um álbum bastante interessante.

Aqui, no yahoo video, o vídeo de "Betrayed"

a biografia da banda aqui

o site da banda aqui



(um poster da banda, retirado daqui



Jorge Vicente

Aos Meus Amigos



(imagem de um belo crepúsculo)

dedicado a vocês todos, que merecem o prémio da amizade:

Lumife
Maria
Mana
Ana Freire
Ana Costa

AOS MEUS AMIGOS

Disseram-me que, de manhã,
se ouve o Tejo todo,
e que as pessoas transportam em
si aquela imensidade vasta,
como quem é feito de História
e não sabe porquê

disseram-me que o tempo não
volta ao lugar onde nasceu, e
que os amigos que se perdem são
como o areal à volta da minha casa:

os retalhos, as migalhas, a presença
sempre ausente das águas em
combustão

e a sensação de que sempre foi assim,
com aquelas mesmas pessoas,
com aqueles mesmos rostos,
por dentro da História
e com o Tejo debaixo dos braços

Jorge Vicente