18.2.14

Transição

1.

sabes, walt,
um livro nunca terá a dimensão de uma vida ou
de um corpo,
nem as suas palavras estremecem como estremece
um lago, um rio ou um oceano

são dimensões opostas:
a linguagem e a natural visceralidade do
poema,
um poema sem imaginação,
mas com toda a intensidade de quem não espera mais nada
senão o próprio desejo de
viver,

de quem não escreve mais nada
senão essa convicção plena
que matar é sinónimo de

[tornar escura essa voz].

Jorge Vicente

4 comentários:

Cássio Amaral disse...

muito bom jorge.

o final do poema é excelente.

abração.

Graça Pires disse...

"a linguagem e a natural visceralidade do poema" são de facto dimensões opostas, mas completam-se tantas vezes...
Gostei muito do poema.
Abraço.

jorge vicente disse...

Meu querido amigo,

tive alguma dificuldade no final do poema até porque estava com a sensação de que não estava a resultar.

Mas veio-me esta imagem de escuridão, de poesia não clara que tive de colocar essa ideia no final. Até porque considero mesmo que falta à poesia recente uma forma de tornar clara a voz, de torná-la viva, mas viva de uma forma pulsante e clara.

Muito obrigado pelo comentário

Até já e muitos abraços
Jorge

jorge vicente disse...

São dimensões opostas, minha amiga, mas completam-se até porque são uma e a mesma coisa. Ou como diria Llansol, "Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros".

Quando escrevemos, em que dimensão habitamos? A dimensão da imaginação, em que as palavras resultam dos significados que pretendemos dar ao texto, dimensão essa que é, de uma certa forma, mental? Ou uma dimensão mais vivencial, em que a imaginação já se corporificou e se tornou no próprio acto de escrita, uma espécie de hierofania, muitas vezes inconsciente, mas plenamente no aqui-e-agora da linguagem?

É maravilhoso esse diálogo!

Muitos beijos
Jorge